J . Herculano Pires – AS QUESTÕES POLÍTICAS – Livro O CENTRO ESPÍRITA – cap. 8
Os resíduos do totalitarismo religioso, procedentes das fases teocráticas da evolução social e política do mundo, estão ainda bem vivos e atuantes em nosso meio e na maioria das nações. É natural que isso aconteça pois a evolução dos povos e de suas estruturas sócio culturais é sempre lenta e difícil em razão da complexibilidade das organizações maciças com seus múltiplos interesses, tradições, costumes, superstições e outros muitos elementos em mistura nos grupos sociais. A estática social se funda nas fixações de padrões de comportamento, usos e costumes, modos de pensar e de ser, tudo isso constituindo a trama do que podemos chamar o instinto social de conservação, muito mais forte e poderoso do que o instinto de conservação individual.
Não raro nos espantamos com situações visivelmente estúpidas ou injustas que prevalecem nos meios sociais, sem que ninguém se lembre de modificá-las. É que as raízes do hábito se entrelaçam no inconsciente coletivo, sustentando acomodações muitas vezes já incômodas, mas que a estrutura geral sustenta para se proteger de desfigurações ou infiltrações de elementos estranhos. A estrutura arcaica do Estado continuou a influir nos Estados modernos, por maiores que sejam as suas modificações. A ligação genésica dos elementos sociais básicos das estruturas antigas: Governo, Poder Militar, Religiões dominantes, Justiça, Repressão Policial, Língua, Folclore correspondem no seu conjunto a um arquétipo coletivo da estrutura sócio cultural. Nos estados modernos a separação entre o Estado e a Religião, determinada pelas revoluções religiosas, que empolgaram grande parte das massas e das elites, representa apenas um processo de acomodação. A separação é apenas formal, pois em substância, nas Repúblicas, como nos antigos Impérios, a conjugação Estado Igreja permanece quase inalterada.
Diante disso, os grupos religiosos minoritários procuram, por sua vez, na reivindicação de seus direitos, manter relações semelhantes com o Estado, em defesa de sua própria conservação. E o fazem através das franquias políticas da sociedade, procurando eleger seus representantes para cargos governamentais. Os interesses imediatistas falam mais alto de que os ideais no espírito prático dos renovadores. Essa razão por que, no Brasil e na maioria das nações em que o Espiritismo floresceu suficientemente, as instituições espíritas se defrontam às vezes com os problemas das infiltrações políticas nos Centros.
Muitos deles se transformam, nas épocas eleitorais, em verdadeiros comitês de candidatos que surgem do próprio meio espírita ou de meios que se ligam a ele por algumas afinidades reais ou supostas. Surge então o perigo das deformações doutrinárias nos Centro, geralmente empolgados pela possibilidade de eleição de um companheiro ou aliado para representação no poder político. Os espíritas são cidadãos como os demais e têm direitos e deveres no plano político, mas não têm o direito de envolver uma instituição doutrinária nas disputas eleitorais. É nesse momento que surge para o meio espírita o velho problema da separação entre o Estado e a Igreja.
Não existe Igreja espírita, mas existe o Centro. Quando os dirigentes deste não estão devidamente esclarecidos sobre este assunto, podem transformar o Centro num Comitê eleitoral. Isto é o que se deve impedir. A Política é a arte da administração pública, da direção dos negócios públicos. O espírita, como cidadão, pode e deve participar dela, de acordo com os ditames da sua consciência, mas não tem o direito de se apresentar ao eleitorado como candidato espírita, porque o Espiritismo não é não tem e não pode ter uma posição política. O espiritismo é a Ciência do Espírito e não da rés pública. É no exame desse problema que compreendemos a resposta do Cristo aos que desejavam envolvê-lo nos problemas políticos do tempo: “Daí a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”. Que o cidadão dê ao Estado o que lhe compete dar, mas não se esqueça de reservar para Deus o que só a ele pertence: a sua qualificação específica de espírita no plano religioso. Nesse plano, o espírita tem deveres específicos, que são os da fidelidade à Doutrina, a preservação da sua pureza, evitando de desviá-la de seu objetivo exclusivamente espiritual. A Política é campo terreno de disputas, intrigas, conflitos de toda ordem. Comprometer o Espiritismo nessa área de discórdias, em que fervem as paixões partidárias e ideológicas, é levar para a área espírita as divergências mundanas, como vemos na História do passado e agora mesmo, na História contemporânea, as inquietações e os desajustes do mundo. A função política do Espiritismo existe, mas noutro sentido. Não lhe cabe nenhum lugar nas disputas de cargos políticos, mas lhe cabe a formação espiritual dos homens para que exerçam, como cidadãos, influência benéfica na solução dos problemas políticos, através do bom senso e da retidão da consciência, quando levado pelas circunstâncias, chamado ou convocado para funções administrativas em áreas do Estado.
O seu esforço para o aperfeiçoamento das estruturas políticas, o seu exemplo de respeito a todos que agem nessa área, o desinteresse puro que demonstrar no exercício de suas funções, sacrificando-se pelo bem público não constituem, nesses casos mistura de interesses materiais com objetivos espirituais. Para bem entendermos isso devemos lembrar que o Cristo nunca exerceu nenhuma função política, nunca pretendeu assumir posições políticas, recusou-se até mesmo nas lutas pelas libertações de Israel dominada pelos romanos (questão que os judeus consideravam como sagrada, pois misturavam as coisas do Céu com as da Terra), mas apesar de sua total abstinência política conseguiu injetar nas estruturas políticas do Mundo a seiva divina da orientação evangélica.
O mesmo aconteceu com Kardec, que passou incólume pelas agitações políticas da França, numa fase tumultuosa, sem tentar aproveitar-se de aproximações políticas para dar Espiritismo o lugar que lhe cabia no desenvolvimento espiritual da Terra. O Espiritismo se liga a todos os campos das atividades humanas, não para entranhar-se neles, mas para iluminá-los com as luzes do Espírito. Servir o Mundo através de Deus é a sua função, e não servir a Deus através do Mundo, que nada pode dar a Deus, senão a obediência às leis divinas. A política é um campo magnético de forças cruzadas, que exerce várias formas de atração sobre os homens, na pauta de seus múltiplos e contraditórios interesses. Mas o ponto de conexão das energias políticas com os interesses materiais tem nome e sobre nome: Egoísmo Vaidoso. Nas fases de crise política vemos os políticos engolirem heroicamente cobras e lagartos para se equilibrarem nas situações mais difíceis. O espírita engajado na política tem de enfrentar todos esses problemas sem projetar a sombra de suas atitudes contraditórias ou falsas no campo doutrinário do seu eleitorado. No exercício de funções jornalísticas vimos diversos espíritas de nome cercados de esperanças falirem na luta política, desservindo às ideias que desejavam servir. Perderam a parada para si mesmos e saíram da luta mutilados. Por isso entendemos que o espírita só deve entrar na política quando convocado para funções ou posições que não possa recusar, porque então disporá do amparo de sua independência, de seu desinteresse pela carreira e de sua disposição para superar as fascinações traiçoeiras do meio. Quando consegue manter-se nessa rara posição, presta realmente serviços à causa pública e aos ideais, pagando por esse heroísmo o preço de profundas desilusões.
O espírita não é nem pode ser avesso aos interesses públicos, mas não deve arriscar-se aos azares da política se não estiver impregnado até à medula do firme propósito de resistir a todas as fascinações do cargo que vai exercer e solidamente esteiado nos princípios da Doutrina. Entre os apóstolos de Jesus havia um jovem ambicioso, embriagado de sonhos e aspirações políticas para o seu povo, que acabou atirando aos pés dos rabinos do Templo as trinta moedas de sua traição. O Espiritismo é o fermento de um novo mundo em que a política estará livre dessa condição amarga e perigosa. Se quisermos ajudar a política a elevar-se nos rumos do futuro não é a ela que devemos nos entregar, mas à introdução dos ideais espíritas na consciência humana, porque sem fermento o bolo não cresce.
Tivemos a ocasião de ver candidatos espíritas a cargos políticos elaborando projetos de lei para a constituição oficial da Igreja Espírita, com a necessária hierarquia eclesiástica, de maneira a se dar ao Espiritismo, como alegavam, maior força política. (Repetição da entrega do Cristianismo ao Império Romano). Vimos e ouvimos pregações entusiásticas de políticos espíritas encarecendo a necessidade de criar-se a liturgia espírita, com toda a série de sacramentos, desde o batismo e o casamento até a recomendação de defuntos nos Centros. (Capitulação do Cristianismo no Século IV ante às infiltrações do sincretismo religioso). Lutamos duramente contra políticos espíritas que tentavam a criação do Partido Político Espírita que desencadearia a luta religiosa no meio político- eleitoral. Participamos de assembleias de grandes instituições doutrinárias que enfrentavam a tese de uma organização geral dos espíritas com objetivos eleitorais rigidamente programados e executados pelas Federações. (Queda da Igreja nos compromissos políticos dominadores). Vimos publicações oficiais de instituições espíritas entregues à propaganda política no meio doutrinário e Centros Espíritas honestos e ativos transformados em comitês permanentes de candidaturas políticas também permanentes. A casca de banana das ambições políticas, jogada intencionalmente na calçada das Federações provocaram escorregões e quedas de espíritas dedicados e bem intencionados. A ilusão política desvairou muitas figuras do meio espírita, enfraquecendo o movimento espírita, e várias dessas figuras chegaram a carregar velas acessas em procissões noturnas para não perderem o prestígio político juntos às áreas dos católicos simpatizantes da Doutrina.
Vimos também algumas dessas figuras recolhidas a tratamento de desobsessões em Centros socorristas e outras recolhidas, em estado de completa perturbação ao tratamento de Hospitais Espíritas. Lemos livros de conhecidos espíritas estudiosos e cultos defendendo ideologias de direita e de esquerda em nome da Doutrina. E ainda assistimos ao esfacelamento de Mocidades Espíritas, dotadas de toda a agressividade da juventude, promovendo movimentos políticos e sustentado teses violentas em favor de um Espiritismo mais integrado na realidade social.
Felizmente essa sarabanda de loucuras passou sem empolgar a maioria absoluta dos espíritas. Mas a ameaça pairou sobre o movimento doutrinário e sobre a Doutrina, mostrando-nos ao vivo a lamentável falta de conhecimento da Doutrina e as consequências a que essa ignorância (mesmo da parte de criaturas ilustradas e estudiosas) pode levar o movimento doutrinário. Em todos esses casos, a fascinação política se conjugava com interpretações sofísticas de princípios doutrinários, que justificavam (não intencionalmente) os perigosos desvios do pensamento espírita.
No Centro Espírita, por essas e outras, não se pode restringir as atividades apenas ao aspecto religioso e assistencial. Além dos cursos que devem ser dados sobre a Doutrina, com método e insistência, é necessário que em todas as sessões sejam pronunciadas breves palestras elucidadoras, seguidas de diálogos da assistência com o expositor. Sem o constante e livre estudo da Doutrina — dirigido sem pretensões, mas também sem o receio de abordagem dos pontos mais difíceis da Doutrina, não conseguiremos superar o estágio embrionário em que ainda permanece grande parcela do movimento doutrinário.
E se não superarmos esse estágio continuaremos expostos a todos os perigos que relacionamos e a outros que poderão surgir. O Centro Espírita possui os elementos seguros para a realização desse objetivo. Basta que os dirigentes, por mais modestos que sejam, não se esqueçam da bússola que lhes permitirá navegar com segurança nas águas mais tumultuosas: a Codificação de Allan Kardec. Basta um esquema dos pontos essenciais da Codificação, mantido obrigatoriamente nos trabalhos públicos, com a rejeição da mistificação roustainguistas e das novidades sem nenhuma autoridade que são semeadas em nosso meio por pessoas sistemáticas ou pretensiosas, para se conseguir bons resultados.
Kardec é a base e a cúpula da Doutrina, com o apoio, que nunca lhe faltou, do Espírito da Verdade. Se não queremos novidades é porque os novidadeiros somente se apoiam em suas pretensões individuais. Ninguém, nem mesmo Kardec, se estivesse sozinho na elaboração da Doutrina, não conseguiria construir o monumento de lógica inabalável que ele, com a ajuda dos Espíritos Superiores e o seu trabalho gigantesco de pesquisas conseguiu deixarmos. Se não respeitarmos esse monumento, o melhor que temos a fazer é mudar-nos para outro campo doutrinário, deixando o Espiritismo avançar por si mesmo.
PARTICIPAÇÃO POLÍTICA DO ESPÍRITA
Ayton Paiva
- COMO O ESPÍRITA NÃO DEVE ATUAR NA POLÍTICA:
1.1. levar a política partidária para dentro do Centro, das Entidades ou do Movimento Espírita;
1.2. utilizar-se de médiuns e dirigentes espíritas para apoiar políticos partidários candidatos a cargos eletivos aos
Poderes Executivos e Legislativo;
1.3. catar votos para políticos que, às vezes, dão alguma “verbinha” para asilos, creches e hospitais, mas cuja
conduta política não se afina com os princípios éticos ou morais do Espiritismo;
1.4. apoiar políticos que se dizem espíritas ou cristãos, mas aprovam as injustiças, as barganhas, a
“politicagem” (usar a política partidária para interesses egoísticos pessoais ou de grupos a que se ligam);
1.5. participar da política partidária apenas por interesse pessoal, para melhorar a sua vida e de sua família,
divorciado em sua militância político-partidária dos princípios e normas da Filosofia Espírita.
Não deve jamais: *Apresentar-se como candidato político ou representante espírita na política partidária, porque não existe partido político espírita e os que dizem ser seu representante estão em erro e em plena contradição com a verdade. Os que desejam concorrer ao pleito e a cargos público devem o fazer usando seu nome e seu currículo próprio; afastando por completa a hipótese de se apresentar como candidato espírita a seu eleitores e simpatizantes. “nossa consideração pessoal”
- COMO O ESPÍRITA DEVE ATUAR NA POLÍTICA:
2.1. O espírita pode e deve estudar e reflexionar sobre os princípios político-filosófico-espíritas no Centro
Espírita, pois eles estão contidos em O Livro dos Espíritos, Parte Terceira, das Leis Morais;
2.2. através da análise, do estudo e da reflexão das normas e princípios acima referidos, o espírita deve
identificar o egoísmo, o orgulho e a injustiça nas instituições humanas, denunciando-as e agindo para que elas
desapareçam da sociedade humana;
2.3. confrontar os fundamentos morais e objetivos do Espiritismo com os fundamentos morais e objetivos dos
partidos políticos, verificando de forma coerente qual ou quais deve apoiar e até mesmo participar como membro
atuante, se tiver vocação para tal;
2.4. participar de organizações e movimentos que propugnem pela Justiça, pelo Amor, pelo progresso
intelectual, moral e físico das pessoas. Exemplo: clubes de serviços, sindicatos, associações de classes, diretórios
acadêmicos, movimentos de respeito e defesa dos direitos humanos, etc.;
2.5. fazer do voto um elevado testemunho de amor ao próximo; Considerando que a sociedade humana é dirigida
por políticos que saem das agremiações partidárias e suas influências podem ajudar ou atrasar a evolução intelecto moral da humanidade, o voto, realmente, é uma forma de exprimir o amor ao próximo e à coletividade.
Deve, pois, analisar se a conduta do candidato político-partidário tem maior ou menor relação com os
princípios morais e políticos (aspecto filosófico) do Espiritismo;
2.6. participar de agremiação partidária, se tiver vocação para tal, sabendo, no entanto, da responsabilidade
que assume nesse campo, já que sua militância deve sempre estar voltada para o interesse do ser humano, em seus aspectos social e espiritual. Para isso, sua ação política deverá estar em harmonia com os valores éticos (morais) do Espiritismo que, em última análise, são fundamentalmente os mesmos do Cristianismo;
2.7. participar conscientemente da ação política na sociedade, sem relegar o estudo e a reflexão do Espiritismo
a plano secundário. Pelo contrário, o estudo e a reflexão dos temas espíritas deverão levá-lo a permanente
participação, objetivando a aplicação concreta do Amor e da Justiça ao ser humano, seja individual ou coletivamente.
Boa tarde Mireya, muito obrigado por suas palavras de apoio e incentivo. De fato esta trabalho voluntário nos libertou das amarras medievais da cultura da imposição plea força e violência. Após esta época de trevas do fanatismo no campo do saber, hoje graças ao empenho de grande homens e mulheres no campo da filosofia e outros com o iluminismo se inicia um anova aurora. Ainda não sera para logo abandonarmos o egoismo e paixão materialista, mas como este trabalho do coração estamos também contribuindo humildemente lançando sementes no bem para o amanhã. Abraço, saúde e alegrias!
If some one desires expert view about running a blog then i
suggest him/her to go to see this weblog, Keep up the pleasant work.