{"id":3852,"date":"2022-06-26T23:23:16","date_gmt":"2022-06-27T02:23:16","guid":{"rendered":"https:\/\/estudosherculanopires.com.br\/site\/?p=3852"},"modified":"2022-06-26T23:45:10","modified_gmt":"2022-06-27T02:45:10","slug":"falso-irmaos-e-amigos-ineptos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estudosherculanopires.com.br\/site\/2022\/06\/falso-irmaos-e-amigos-ineptos\/","title":{"rendered":"FALSOS IRM\u00c3OS E AMIGOS INEPTOS"},"content":{"rendered":"\n<p><span style=\"font-size: 24pt;\">Falsos irm\u00e3os e amigos ineptos<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\"><strong>Revista Esp\u00edrita\u00a0 &#8211; Jornal de estudos psicol\u00f3gicos &#8211; Mar\u00e7o 1863<\/strong><span style=\"text-decoration: underline;\"><strong><br \/><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #333333;\">Como demonstramos no artigo precedente, nada poderia prevalecer contra o destino providencial do Espiritismo. Do mesmo modo que ningu\u00e9m pode impedir a queda daquilo que pelas leis divinas deve cair, \u2500 homens, povos ou coisas \u2500 nada pode travar a marcha daquilo que tem de avan\u00e7ar. <br \/><br \/>Em rela\u00e7\u00e3o ao Espiritismo, esta verdade ressalta dos fatos realizados e, muito mais ainda, de outro ponto capital. Se o Espiritismo fosse uma simples teoria, um sistema, poderia ser combatido por outro sistema, mas ele repousa numa lei da Natureza, assim como o movimento da Terra. <br \/><br \/>A exist\u00eancia dos Esp\u00edritos \u00e9 inerente \u00e0 esp\u00e9cie humana. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel evitar que existam, como n\u00e3o se pode impedir a sua manifesta\u00e7\u00e3o, do mesmo modo que n\u00e3o se impede o homem de caminhar. Para tanto eles n\u00e3o precisam de licen\u00e7a e se riem de toda proibi\u00e7\u00e3o, pois n\u00e3o se deve perder de vista que, al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es medi\u00fanicas propriamente ditas, h\u00e1 manifesta\u00e7\u00f5es naturais e espont\u00e2neas, que se produziram em todos os tempos e que se produzem diariamente numa por\u00e7\u00e3o de gente que jamais ouviu falar de Esp\u00edritos. <br \/><br \/>Quem, pois, poderia opor-se ao desenvolvimento de uma lei da Natureza? Sendo obra de Deus, insurgir-se contra essa lei \u00e9 revoltar-se contra Deus. Estas considera\u00e7\u00f5es explicam a inutilidade dos ataques dirigidos contra o Espiritismo. O que tem os esp\u00edritas a fazer em presen\u00e7a dessas agress\u00f5es \u00e9 continuar pacificamente seus trabalhos, sem bas\u00f3fia, com a calma e a confian\u00e7a dadas pela certeza de atingir o objetivo. <br \/><br \/>Contudo, se nada pode parar a marcha geral, h\u00e1 circunst\u00e2ncias que podem determinar entraves parciais, como uma pequena barragem pode desacelerar o curso de um rio, sem impedi-lo de correr. Entre essas circunst\u00e2ncias est\u00e3o os movimentos inconsiderados de certos adeptos mais zelosos que prudentes, que n\u00e3o calculam bem o alcance de seus atos ou de suas palavras. Assim, produzem sobre as pessoas n\u00e3o iniciadas na doutrina uma impress\u00e3o desfavor\u00e1vel, muito mais pr\u00f3pria a afast\u00e1-las que as diatribes dos advers\u00e1rios. <br \/><br \/>Sem d\u00favida, o Espiritismo est\u00e1 muito difundido, mas estaria ainda mais se todos os adeptos tivessem sempre escutado os conselhos da prud\u00eancia e guardado uma s\u00e1bia reserva. Sem d\u00favida \u00e9 preciso levar-lhes em conta a inten\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 certo que mais de um tem justificado o prov\u00e9rbio: \u201cMelhor um inimigo declarado que um amigo inepto.\u201d <br \/><br \/>O pior disto \u00e9 fornecer armas aos advers\u00e1rios, que sabem explorar habilmente uma falha. Nunca seria demais recomendar aos esp\u00edritas refletir maduramente antes de agir. Em tais casos manda a prud\u00eancia n\u00e3o se bastar \u00e0 opini\u00e3o pessoal. Hoje, que de todos os lados se formam grupos ou sociedades, nada mais simples que se reunir antes de agir. N\u00e3o tendo em vista sen\u00e3o o bem da causa, o verdadeiro esp\u00edrita sabe fazer abnega\u00e7\u00e3o do amor pr\u00f3prio. Crer em sua infalibilidade, recusar o conselho da maioria e persistir num caminho que se revela mau e comprometedor, n\u00e3o \u00e9 atitude do verdadeiro esp\u00edrita. Seria dar prova de orgulho, sen\u00e3o de obsess\u00e3o. <br \/><br \/>Entre as inabilidades colocam-se em primeira linha as publica\u00e7\u00f5es intempestivas ou exc\u00eantricas, por serem fatos de maior repercuss\u00e3o. Nenhum esp\u00edrita ignora que os Esp\u00edritos est\u00e3o longe de possuir a ci\u00eancia suprema, pois muitos dentre eles sabem menos que certos homens e tamb\u00e9m, como certos homens, t\u00eam a pretens\u00e3o de saber tudo. Sobre todas as coisas t\u00eam sua opini\u00e3o pessoal, que pode estar certa ou errada. <span style=\"background-color: #ffcc99;\">Ora, ainda como os homens, os que t\u00eam ideias mais falsas s\u00e3o os mais cabe\u00e7udos.<\/span> <span style=\"background-color: #ffff00;\">Esses falsos s\u00e1bios falam de tudo, armam sistemas, criam utopias ou ditam as coisas mais exc\u00eantricas e sentem-se felizes quando encontram int\u00e9rpretes complacentes e cr\u00e9dulos que aceitam as suas elucubra\u00e7\u00f5es de olhos fechados.<\/span> Tais publica\u00e7\u00f5es t\u00eam inconvenientes muito graves, porque o pr\u00f3prio m\u00e9dium, enganado, seduzido muitas vezes por um nome ap\u00f3crifo, as d\u00e1 como coisas s\u00e9rias das quais a cr\u00edtica se apodera para denegrir o Espiritismo, ao passo que, com menos presun\u00e7\u00e3o, bastaria ter-se aconselhado com os colegas para ser esclarecido. \u00c9 muito raro que, neste caso, o m\u00e9dium n\u00e3o ceda \u00e0s injun\u00e7\u00f5es de um Esp\u00edrito que, ainda como certos homens, quer ser publicado a qualquer pre\u00e7o. Com mais experi\u00eancia ele saberia que os Esp\u00edritos verdadeiramente superiores aconselham, mas nem se imp\u00f5em nem adulam jamais e que toda prescri\u00e7\u00e3o imperiosa \u00e9 um sinal suspeito. <br \/><br \/>Quando o Espiritismo estiver completamente assente e conhecido, as publica\u00e7\u00f5es dessa natureza n\u00e3o ter\u00e3o mais inconvenientes que os maus tratados de ci\u00eancia em nossos dias. Mas no come\u00e7o \u2014 repetimo-lo \u2013 elas t\u00eam um lado muito prejudicial. Assim, em se tratando de publicidade, toda circunspec\u00e7\u00e3o \u00e9 pouca e n\u00e3o se calcularia com bastante cuidado o efeito que talvez produzisse sobre o leitor.<span style=\"background-color: #ffff00;\"> Em resumo, \u00e9 um grave erro crer-se obrigado a publicar tudo quanto ditam os Esp\u00edritos, porque, se os h\u00e1 bons e esclarecidos, tamb\u00e9m os h\u00e1 maus e ignorantes.<\/span> Importa fazer uma escolha muito rigorosa de suas comunica\u00e7\u00f5es e afastar tudo quanto for in\u00fatil, insignificante, falso ou de natureza a produzir m\u00e1 impress\u00e3o. E necess\u00e1rio semear, sem d\u00favida, mas semear boa semente e em tempo oportuno. <br \/><br \/>Passemos a assunto ainda mais grave, <span style=\"background-color: #ffff00;\">os <i>falsos irm\u00e3os<\/i>.<\/span> Os advers\u00e1rios do Espiritismo, alguns pelo menos, porquanto existem os de boa-f\u00e9, eles n\u00e3o s\u00e3o, como se sabe, absolutamente escrupulosos quanto \u00e0 escolha dos meios. Para eles tudo vale na guerra, e quando n\u00e3o se pode tomar a cidadela de assalto, mina-se-lhe as bases. Na falta de boas raz\u00f5es, que s\u00e3o as armas leais, vemo-los diariamente despejar mentiras e cal\u00fanias sobre o Espiritismo. A cal\u00fania \u00e9 odiosa, eles bem o sabem, e a mentira pode ser desmentida. Assim, procuram fatos para justificar-se. Mas como achar fatos comprometedores entre gente s\u00e9ria, sen\u00e3o os produzindo por si mesmos ou pelos afiliados? O perigo n\u00e3o est\u00e1 no ataque aberto, nem nas persegui\u00e7\u00f5es, nem mesmo nas cal\u00fanias, como vimos. Est\u00e1 nos artif\u00edcios ocultos empregados para desacreditar e arruinar o Espiritismo por si mesmo. Consegui-lo-\u00e3o? \u00c9 o que vamos examinar. <br \/><br \/>J\u00e1 chamamos a aten\u00e7\u00e3o para essa manobra no relat\u00f3rio de nossa viagem de 1862, porque, em nossa caminhada, recebemos tr\u00eas beijos de Judas, com os quais n\u00e3o nos enganamos, posto n\u00e3o nos tiv\u00e9ssemos manifestado. Ali\u00e1s, t\u00ednhamos sido prevenidos antes de nossa partida, bem como das armadilhas que nos seriam preparadas. Mas ficamos de olho, certo de que um dia mostrariam as unhas, porque \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil a um falso esp\u00edrita imitar sempre um verdadeiro esp\u00edrita, quanto a um mau Esp\u00edrito simular um Esp\u00edrito superior. Nem um nem outro pode sustentar seu papel por muito tempo. <br \/><br \/>De v\u00e1rias localidades nos indicam homens e senhoras de antecedentes e liga\u00e7\u00f5es suspeitas, cujo zelo aparente pelo Espiritismo apenas inspira med\u00edocre confian\u00e7a, e n\u00e3o nos surpreendemos de entre eles encontrar os tr\u00eas Judas de que falamos: eles existem nas baixas e nas altas camadas. Da parte deles muitas vezes \u00e9 mais que zelo: \u00e9 entusiasmo, uma admira\u00e7\u00e3o fan\u00e1tica. Em sua opini\u00e3o, seu devotamento vai at\u00e9 o sacrif\u00edcio de seus interesses e, n\u00e3o obstante, n\u00e3o atraem simpatias: um fluido mals\u00e3o parece envolv\u00ea-los; sua presen\u00e7a nas reuni\u00f5es lan\u00e7a um manto de gelo. Acrescente-se que os meios de subsist\u00eancia de alguns \u00e9 um problema, sobretudo no interior, onde todo mundo se conhece. <br \/><br \/>O que caracteriza principalmente esses pretensos adeptos \u00e9 a tend\u00eancia para fazer o Espiritismo sair dos caminhos da prud\u00eancia e da modera\u00e7\u00e3o por seu ardente desejo do triunfo da verdade; a estimular as publica\u00e7\u00f5es exc\u00eantricas; a extasiar-se de admira\u00e7\u00e3o ante as comunica\u00e7\u00f5es ap\u00f3crifas mais rid\u00edculas que eles t\u00eam o cuidado de espalhar; a provocar, nas reuni\u00f5es, assuntos comprometedores sobre pol\u00edtica e religi\u00e3o, sempre para a vit\u00f3ria da verdade que n\u00e3o pode ficar sob o velador. Seus elogios aos homens e \u00e0s coisas s\u00e3o incens\u00f3rios de arrebentar: s\u00e3o os ferrabr\u00e1s do Espiritismo. <span style=\"background-color: #ffff00;\">Outros s\u00e3o mais adocicados e hip\u00f3critas.<\/span> Com olhar obl\u00edquo e palavras melosas sopram a disc\u00f3rdia enquanto pregam a uni\u00e3o. Colocam em discuss\u00e3o, com habilidade, quest\u00f5es irritantes ou ferinas, assuntos de natureza a provocar dissid\u00eancias. Excitam uma inveja de preponder\u00e2ncia entre os v\u00e1rios grupos e ficariam encantados se os vissem a se apedrejarem e, em favor de algumas diferen\u00e7as de opini\u00e3o sobre quest\u00f5es formais ou de fundo, geralmente provocadas, erguerem bandeira contra bandeira. <br \/><br \/>Alguns, ao que dizem, fazem enorme aquisi\u00e7\u00e3o de livros esp\u00edritas, de que os livreiros mal se apercebem, e uma propaganda intensa. Mas, por efeito do acaso, a escolha de seus adeptos \u00e9 infeliz. Uma fatalidade os leva a procurar de prefer\u00eancia gente exaltada, de ideias obtusas, ou que j\u00e1 deram sinais de aberra\u00e7\u00e3o. Depois, ao estourar um caso que deploram gritando por toda parte, constata-se que essa gente se ocupava do Espiritismo, do qual, a maior parte do tempo, n\u00e3o entenderam uma palavra. Aos livros esp\u00edritas que esses zelosos ap\u00f3stolos distribuem generosamente, com frequ\u00eancia adicionam, n\u00e3o cr\u00edticas, pois seria inabilidade, mas livros de <i>magia e feiti\u00e7aria <\/i>ou escritos pol\u00edticos pouco ortodoxos, ou ign\u00f3beis diatribes contra a religi\u00e3o, a fim de que, surgindo um caso, fortuito ou n\u00e3o, numa verifica\u00e7\u00e3o se possa confundir tudo. <br \/><br \/><span style=\"background-color: #ffff00;\">Como \u00e9 mais c\u00f4modo ter as coisas na m\u00e3o, para ter compadres d\u00f3ceis, o que n\u00e3o se encontra em toda parte, alguns organizam ou fazem organizar reuni\u00f5es onde se ocupam de prefer\u00eancia daquilo que precisamente o Espiritismo desaconselha, e onde h\u00e1 o cuidado de atrair estranhos que nem sempre s\u00e3o amigos. Ali o sagrado e o profano est\u00e3o indignamente confundidos; os mais venerados nomes s\u00e3o misturados \u00e0s mais rid\u00edculas pr\u00e1ticas de magia negra, acompanhadas de sinais e termos cabal\u00edsticos, talism\u00e3s, trip\u00e9s sibilinos e outros acess\u00f3rios. Alguns adicionam, como complemento, e por vezes com objetivo de lucro, a cartomancia, a quiromancia, a borra de caf\u00e9, o sonambulismo pago etc.<\/span> <span style=\"background-color: #ffcc99;\">Esp\u00edritos complacentes, que a\u00ed encontram int\u00e9rpretes n\u00e3o menos complacentes, predizem o futuro, leem a buena-dicha, descobrem tesouros ocultos e tios na Am\u00e9rica e, caso necess\u00e1rio, indicam o curso da bolsa e os n\u00fameros premiados na loteria. <span style=\"text-decoration: underline;\">Depois, um belo dia, a justi\u00e7a interv\u00e9m<\/span>, ou a gente l\u00ea nos jornais a descri\u00e7\u00e3o de uma sess\u00e3o esp\u00edrita \u00e0 qual o autor assistiu e conta o que viu; o que viu com seus pr\u00f3prios olhos. <\/span><br \/><br \/>Tentareis trazer toda essa gente a ideias mais s\u00e3s? Seria trabalho perdido, e compreende-se por qu\u00ea: A raz\u00e3o e o lado s\u00e9rio da doutrina n\u00e3o lhes interessa; \u00e9 o que mais os aflige. Dizer-lhes que prejudicam a causa e que d\u00e3o armas aos inimigos \u00e9 agrad\u00e1-los. Seu objetivo \u00e9 desacredit\u00e1-la, com ares de defend\u00ea-la. Instrumentos, n\u00e3o temem comprometer os outros, levando-os a enfrentar os rigores da lei, nem a si mesmos, pois sabem arranjar uma compensa\u00e7\u00e3o. <br \/><br \/>Nem sempre seu papel \u00e9 id\u00eantico: varia conforme sua posi\u00e7\u00e3o social, suas aptid\u00f5es, a natureza de suas rela\u00e7\u00f5es e o elemento que os faz agir, mas o objetivo \u00e9 sempre o mesmo. Nem todos empregam meios t\u00e3o grosseiros, mas que nem por isto s\u00e3o menos p\u00e9rfidos. Lede certas publica\u00e7\u00f5es que se dizem simp\u00e1ticas \u00e0 ideia, e mesmo aparentemente em defesa da id\u00e9ia; examinai todos os pensamentos e vede se por vezes ao lado de uma aprova\u00e7\u00e3o posta \u00e0 guisa de cobertura e de etiqueta, n\u00e3o descobris, como que lan\u00e7ado ao acaso, um pensamento insidioso, uma insinua\u00e7\u00e3o de sentido d\u00fabio, um fato relatado de modo amb\u00edguo e que pode ser interpretado desfavoravelmente. Entre estes, uns s\u00e3o menos velados e, sob o manto do Espiritismo, t\u00eam em vista suscitar divis\u00f5es entre adeptos. <br \/><br \/>Por certo nos perguntar\u00e3o se todas as torpezas de que acabamos de falar s\u00e3o invariavelmente manobras ocultas ou uma com\u00e9dia com fim interesseiro, e se tamb\u00e9m n\u00e3o podem ser um movimento espont\u00e2neo. Numa palavra, se todos os esp\u00edritas s\u00e3o homens de bom-senso e incapazes de se enganar. <br \/><br \/>Pretender que todos os esp\u00edritas sejam infal\u00edveis seria t\u00e3o absurdo quanto a pretens\u00e3o dos nossos advers\u00e1rios ao privil\u00e9gio exclusivo da raz\u00e3o. Mas se alguns se enganam, \u00e9 que se confundem quanto ao sentido e a finalidade da doutrina. Neste caso, sua opini\u00e3o n\u00e3o pode fazer lei e \u00e9 il\u00f3gico ou desleal, conforme a inten\u00e7\u00e3o, tomar a ideia individual pela ideia geral e explorar a exce\u00e7\u00e3o. Seria o mesmo que tomar as aberra\u00e7\u00f5es de alguns s\u00e1bios como regra de ci\u00eancia. A esses diremos: Se quiserdes saber de que lado est\u00e1 a presun\u00e7\u00e3o de verdade, estudai os princ\u00edpios admitidos pela imensa maioria, se ainda n\u00e3o for pela unanimidade absoluta dos esp\u00edritas do mundo inteiro. <br \/><br \/>Os crentes de boa-f\u00e9, pois, podem enganar-se, e n\u00e3o julgamos crime se n\u00e3o pensarem como n\u00f3s. Se, entre as torpezas acima referidas, algumas fossem apenas opini\u00e3o pessoal, s\u00f3 poder\u00edamos ver nisso desvios isolados, lament\u00e1veis, mas seria injusto fazer recair a responsabilidade sobre a doutrina que os repudia claramente. Mas se dizemos que podem ser o resultado de manobras interessadas, \u00e9 que nosso quadro \u00e9 feito sobre modelos. Ora, como \u00e9 a \u00fanica coisa que o Espiritismo tem realmente a temer no momento, convidamos todos os adeptos sinceros a se porem em guarda, evitando as ciladas que lhes poderiam armar. Para tanto n\u00e3o seria demasiada a circunspec\u00e7\u00e3o na escolha de elementos a introduzir nas reuni\u00f5es, nem a cuidadosa repulsa a todas as sugest\u00f5es que tendessem a desnaturar o car\u00e1ter essencialmente moral. Mantendo a ordem, a dignidade e a gravidade que conv\u00e9m a homens s\u00e9rios, ocupados com uma coisa s\u00e9ria, fechar\u00e3o o acesso aos malintencionados, que se retirar\u00e3o quando reconhecerem que a\u00ed nada t\u00eam a fazer. Pelos mesmos motivos, devem declinar de toda solidariedade com as reuni\u00f5es formadas fora das condi\u00e7\u00f5es prescritas pela s\u00e3 raz\u00e3o e pelos verdadeiros princ\u00edpios da doutrina, se eles n\u00e3o puderem conduzi-los ao bom caminho. <br \/><br \/><span style=\"background-color: #ffff00;\">Como se v\u00ea, h\u00e1 certamente uma grande diferen\u00e7a entre falsos irm\u00e3os e amigos ineptos, mas, sem o querer, o resultado pode ser o mesmo: desacreditar a doutrina.<\/span> A nuan\u00e7a que os separa frequentemente est\u00e1 apenas na inten\u00e7\u00e3o, o que, por vezes, permitiria a confus\u00e3o, e, vendo-os servir aos interesses do partido contr\u00e1rio, supor que por este foram conquistados. A circunspec\u00e7\u00e3o \u00e9, pois, sobretudo neste momento, mais necess\u00e1ria que nunca, pois n\u00e3o devemos esquecer que palavras, a\u00e7\u00f5es e escritos inconsiderados s\u00e3o explorados, e que os advers\u00e1rios se encantam por poderem dizer que isto vem dos Esp\u00edritos. <br \/><br \/>Neste estado de coisas, compreende-se que armas a especula\u00e7\u00e3o, em raz\u00e3o dos abusos aos quais ela pode dar lugar, pode oferecer aos detratores para apoiar a acusa\u00e7\u00e3o de charlatanice. Isto, pois, em certos casos, pode ser uma cilada da qual se deve desconfiar. Ora, como n\u00e3o h\u00e1 charlatanice filantr\u00f3pica, a abnega\u00e7\u00e3o e o desinteresse absolutos dos m\u00e9diuns tiram dos detratores um de seus mais poderosos meios de denegrir, cortando cerce toda discuss\u00e3o a respeito desse assunto. <br \/><br \/>Levar a desconfian\u00e7a ao excesso seria um erro grave, sem d\u00favida, mas em tempo de guerra, e quando se conhece a t\u00e1tica do inimigo, a prud\u00eancia torna-se uma necessidade que n\u00e3o exclui nem a modera\u00e7\u00e3o nem a observa\u00e7\u00e3o das conveni\u00eancias, das quais nunca nos devemos separar. <br \/><br \/>Por outro lado, n\u00e3o nos dever\u00edamos enganar quanto ao car\u00e1ter do verdadeiro esp\u00edrita, pois h\u00e1 nele uma franqueza de atitudes que desafia qualquer suspeita, sobretudo quando corroborada pela pr\u00e1tica dos princ\u00edpios da doutrina. Mesmo que se erga bandeira contra bandeira, como tentam fazer nossos antagonistas, o futuro de cada uma est\u00e1 subordinado \u00e0 soma de consola\u00e7\u00f5es e satisfa\u00e7\u00f5es morais que elas trazem. Um sistema n\u00e3o pode prevalecer sobre outro se n\u00e3o for mais l\u00f3gico, o que s\u00f3 a opini\u00e3o p\u00fablica pode julgar. Em todo caso, a viol\u00eancia, as inj\u00farias e a acrim\u00f4nia s\u00e3o maus antecedentes e uma recomenda\u00e7\u00e3o ainda pior. <br \/><br \/>Resta examinar as consequ\u00eancias de tal estado de coisas. Essas manobras, sem d\u00favida, podem levar momentaneamente a algumas perturba\u00e7\u00f5es parciais, raz\u00e3o pela qual \u00e9 necess\u00e1rio adi\u00e1-las tanto quanto poss\u00edvel, mas n\u00e3o prejudicariam o futuro, em primeiro lugar porque ter\u00e3o um tempo restrito, de vez que s\u00e3o uma manobra da oposi\u00e7\u00e3o que cair\u00e1 pela for\u00e7a das coisas; em segundo lugar porque, digam o que disserem e fa\u00e7am o que fizerem, jamais tirar\u00e3o da doutrina seu car\u00e1ter distintivo, sua filosofia racional e sua moral consoladora. Por mais que a torturem e deformem, por mais que fa\u00e7am falar os Esp\u00edritos \u00e0 sua vontade ou recolham comunica\u00e7\u00f5es ap\u00f3crifas para lan\u00e7ar contradi\u00e7\u00f5es, n\u00e3o far\u00e3o prevalecer um ensino isolado, mesmo que verdadeiro e n\u00e3o suposto, contra aquele que \u00e9 dado por toda parte. <br \/><br \/>O Espiritismo se distingue de todas as outras filosofias porque n\u00e3o \u00e9 concep\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica de um homem s\u00f3, mas de um ensino que cada um pode receber em todos os cantos da Terra, e tal \u00e9 a consagra\u00e7\u00e3o que <i>O Livro dos Esp\u00edritos<\/i> recebeu<i>. <\/i>Escrito sem equ\u00edvocos poss\u00edveis e ao alcance de todas as intelig\u00eancias, esse livro ser\u00e1 sempre a express\u00e3o clara e exata da doutrina e a transmitir\u00e1 intacta aos que vierem depois de n\u00f3s. As c\u00f3leras que ele excita s\u00e3o ind\u00edcios do papel que tem de representar, e da dificuldade de lhe opor algo de mais s\u00e9rio. O que fez o r\u00e1pido sucesso da Doutrina Esp\u00edrita foram as consola\u00e7\u00f5es e as esperan\u00e7as que ela d\u00e1. Todo sistema que, pela nega\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios fundamentais, tendesse a destruir a pr\u00f3pria fonte dessas consola\u00e7\u00f5es, n\u00e3o poderia ser acolhido com indulg\u00eancia. <br \/><br \/>\u00c9 preciso n\u00e3o perder de vista que estamos, como j\u00e1 dissemos, em momento de transi\u00e7\u00e3o, e que nenhuma transi\u00e7\u00e3o se opera sem conflito. N\u00e3o se admirem de ver agitarem-se as paix\u00f5es em jogo, as ambi\u00e7\u00f5es comprometidas, as pretens\u00f5es frustradas, e cada um tentar retomar o que lhe escapa, aferrando-se ao passado. Pouco a pouco, tudo isso se extingue. A febre se acalma, os homens passam e as ideias novas ficam. <br \/><br \/>Esp\u00edritas, elevai-vos pelo pensamento. Lan\u00e7ai vosso olhar vinte anos para a frente, e o presente n\u00e3o mais vos inquietar\u00e1.\u00a0<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falsos irm\u00e3os e amigos ineptos Revista Esp\u00edrita\u00a0 &#8211; Jornal de estudos psicol\u00f3gicos &#8211; Mar\u00e7o 1863 Como demonstramos no artigo precedente, nada poderia prevalecer contra o destino providencial do Espiritismo. 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