{"id":1257,"date":"2019-01-13T22:23:56","date_gmt":"2019-01-14T00:23:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.estudosherculanopires.com.br\/site\/?p=1257"},"modified":"2021-10-21T01:21:40","modified_gmt":"2021-10-21T04:21:40","slug":"o-ceu-e-o-inferno-a-doutrina-das-penas-eternas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estudosherculanopires.com.br\/site\/2019\/01\/o-ceu-e-o-inferno-a-doutrina-das-penas-eternas\/","title":{"rendered":"O C\u00c9U E O INFERNO &#8211; A DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS"},"content":{"rendered":"\n<p><a href=\"https:\/\/www.estudosherculanopires.com.br\/site\/wp-admin\/admin.php?page=wpseo_dashboard#top#dashboard\">Painel<\/a><\/p>\n\n\n<header>\n<h1 style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-208 size-full\" src=\"https:\/\/www.estudosherculanopires.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/logmaskHerculano-2.png\" alt=\"\" width=\"652\" height=\"317\" srcset=\"https:\/\/estudosherculanopires.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/logmaskHerculano-2.png 652w, https:\/\/estudosherculanopires.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2018\/08\/logmaskHerculano-2-300x146.png 300w\" sizes=\"(max-width: 652px) 100vw, 652px\" \/><\/h1>\n<\/header>\n<div id=\"content\" class=\"post-single-content box mark-links\">\n<div>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>O C\u00c9U E O INFERNO <\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">CAP\u00cdTULO VI<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><strong>DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>Origem da Doutrina das Penas Eternas<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>1 \u2014 A cren\u00e7a na eternidade das penas perde terreno cada dia, de tal maneira que, mesmo n\u00e3o sendo profeta, podemos prever o seu fim pr\u00f3ximo. Ela tem sido combatida por argumentos t\u00e3o poderosos e decisivos, que parece quase sup\u00e9rfluo ocuparmo-nos dela hoje, bastando que a deix\u00e1ssemos extinguir-se por si mesma. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o se pode, entretanto, esquecer que, por mais caduca que ela pare\u00e7a, ainda permanece como o centro de resist\u00eancia dos advers\u00e1rios das ideias novas, o ponto que eles defendem com mais ardor porque \u00e9 um dos seus flancos mais vulner\u00e1veis, e porque preveem as consequ\u00eancias da sua queda. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Nesse sentido, a quest\u00e3o merece um exame s\u00e9rio.<\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">2 \u2014 A doutrina das penas eternas, como a do inferno material, teve a sua raz\u00e3o de ser quando podia servir de freio para os homens intelectual e moralmente pouco desenvolvidos. Da mesma maneira que eles n\u00e3o podiam impressionar-se muito com a ideia de penas espirituais, tamb\u00e9m n\u00e3o se impressionariam com penalidades temporais. N\u00e3o compreenderiam mesmo a justi\u00e7a das penas graduais e proporcionais, porque n\u00e3o estavam aptos a apreender as nuan\u00e7as quase sempre sutis entre o bem e o mal, nem o valor relativo das circunst\u00e2ncias atenuantes ou agravantes.<br \/>3 \u2014 Quanto mais pr\u00f3ximos do estado primitivo, mais materializados s\u00e3o os homens. <span style=\"background-color: #ffff00;\"><strong>O senso moral \u00e9 o que se desenvolve mais tardiamente.<\/strong><\/span> Por isso mesmo s\u00f3 podem fazer uma ideia muito imperfeita de Deus e de seus atributos, e uma ideia igualmente vaga da vida futura. Assemelham Deus \u00e0 sua pr\u00f3pria natureza, figurando-o como um soberano absoluto, tanto mais tem\u00edvel quanto \u00e9 invis\u00edvel, como um d\u00e9spota que, oculto no seu pal\u00e1cio, jamais se mostra ao povo.<br \/>Deus s\u00f3 \u00e9 ent\u00e3o poderoso pela for\u00e7a material, porque eles n\u00e3o compreendem o poder espiritual. S\u00f3 o concebem armado com o raio, em meio aos clar\u00f5es da tempestade, semeando \u00e0 sua passagem a ru\u00edna e a desola\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira dos conquistadores invenc\u00edveis. <\/span><span style=\"color: #000000;\">Um Deus de mansuetude e de miseric\u00f3rdia n\u00e3o seria Deus, mas um ser d\u00e9bil que n\u00e3o poderia fazer-se obedecer. A vingan\u00e7a implac\u00e1vel, os castigos terr\u00edveis, eternos, nada tinham de contr\u00e1rio \u00e0 ideia que faziam de Deus, nada que lhes repugnasse a raz\u00e3o. Implac\u00e1veis eles mesmos nas suas lutas, cru\u00e9is para os inimigos, piedosos para com os vencidos, Deus, que lhes era superior devia ser ainda mais terr\u00edvel do que eles. Para esses homens eram necess\u00e1rias cren\u00e7as religiosas adequadas \u00e0 sua natureza ainda rude. Uma religi\u00e3o inteiramente espiritual, feita de amor e caridade, n\u00e3o poderia harmonizar-se com a brutalidade dos seus costumes e das suas paix\u00f5es. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">N\u00e3o acusemos pois Mois\u00e9s por sua legisla\u00e7\u00e3o draconiana, que era apenas suficiente para conter um povo ind\u00f3cil, nem de haver feito de Deus um ser vingativo. Era o necess\u00e1rio para a \u00e9poca. A suave doutrina de Jesus n\u00e3o poderia encontrar eco e se mostraria impotente.<br \/>4 \u2014 \u00c0 medida que o Esp\u00edrito se desenvolveu, o v\u00e9u material foi-se dissipando aos poucos e os homens se tornaram mais aptos a compreender as quest\u00f5es espirituais. Mas tudo isso teve de se fazer gradualmente. Quando Jesus veio j\u00e1 pode anunciar um Deus clemente, falar do seu reino que n\u00e3o era deste mundo e dizer aos homens: amai-vos uns aos outros, fazei o bem aos que vos odeiam, enquanto os antigos diziam: olho por olho e dente por dente. Mas quais eram os homens que viviam no tempo de Jesus? Seriam almas novas, criadas para ali se encarnarem? Se assim fosse, Deus teria criado no tempo de Jesus almas mais adiantadas que as do tempo de Mois\u00e9s e nesse caso, em que se tornariam estas \u00faltimas? Teriam elas adormecido no embrutecimento pela eternidade? O simples bom senso repele esta suposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o. Eram as mesmas almas que ap\u00f3s terem vivido sob o dom\u00ednio da lei Mosaica, haviam adquirido atrav\u00e9s de muitas exist\u00eancias o desenvolvimento suficiente para compreenderem uma doutrina mais elevada, e que atualmente mostram-se ainda mais adiantadas, podendo receber um ensino mais completo.<br \/>5 \u2014 Apesar disso, o Cristo n\u00e3o pode revelar aos seus contempor\u00e2neos todos os mist\u00e9rios do futuro. Ele mesmo disse: tenho ainda muitas coisas para vos dizer, mas n\u00e3o as podereis compreender, \u00e9 por isso que vos falo em par\u00e1bolas. Quanto aos problemas morais, aos deveres das rela\u00e7\u00f5es humanas, Ele foi bastante preciso, porque, tocando a corda sens\u00edvel dos interesses materiais podia fazer-se compreender. Quanto aos outros pontos Ele se limitou a semear, sob forma aleg\u00f3rica, os germes que deveriam desenvolver-se mais tarde. A doutrina das penas e das recompensas futuras estava neste caso. Particularmente no tocante \u00e0s penas Ele n\u00e3o podia romper abrutamente as concep\u00e7\u00f5es tradicionais. Vinha revelar aos homens novos deveres: a caridade e o amor do pr\u00f3ximo substituindo o \u00f3dio e a vingan\u00e7a; a abnega\u00e7\u00e3o em lugar do ego\u00edsmo. Isto j\u00e1 era muito. Ele n\u00e3o podia conscientemente atenuar o medo aos castigos reservados aos prevaricadores sem enfraquecer, ao mesmo tempo, o princ\u00edpio do dever.<br \/>Jesus prometia o reino dos c\u00e9us aos bons. Esse reino estava portanto interditado aos maus. Para onde iriam estes? Era necess\u00e1ria uma contraparte capaz de impressionar as intelig\u00eancias demasiado materiais para compreenderem a vida espiritual. N\u00e3o se deve esquecer que Jesus se dirigia ao povo, \u00e0 parte menos esclarecida da popula\u00e7\u00e3o, para a qual tinha de usar imagens de certa maneira palp\u00e1veis e n\u00e3o ideias abstraias. Eis porque n\u00e3o podia entrar em detalhes sup\u00e9rfluos nesse terreno: bastava-lhe opor uma puni\u00e7\u00e3o \u00e0 recompensa sendo isto o suficiente naquela \u00e9poca.<br \/>6 \u2014 Se Jesus amea\u00e7ou os culpados com o fogo eterno, tamb\u00e9m os amea\u00e7ou de serem lan\u00e7ados na Geena. Mas o que era a Geena? Um lugar nas cercanias de Jerusal\u00e9m, o dep\u00f3sito de lixo da cidade. Seria poss\u00edvel tomar-se isso ao p\u00e9 da letra? Era apenas uma dessas imagens fortes de que se servia para impressionar as massas. Acontecia o mesmo com o fogo eterno. Se n\u00e3o fosse esse o seu pensamento, Ele estaria em contradi\u00e7\u00e3o consigo mesmo ao exaltar a clem\u00eancia e a miseric\u00f3rdia de Deus, porque a clem\u00eancia e a inexorabilidade se negam reciprocamente. Seria pois nos enganarmos estranhamente sobre o sentido das palavras de Jesus, vermos nela a san\u00e7\u00e3o do dogma das penas eternas, quando todo o seu ensino proclama a bondade do criador. Na ora\u00e7\u00e3o dominical nos ensinou a dizer: Senhor, perdoai as nossas ofensas como perdoamos os nossos ofensores. Se o culpado n\u00e3o pudesse esperar nenhum perd\u00e3o, seria in\u00fatil pedi-lo. Mas h\u00e1 condi\u00e7\u00f5es para esse perd\u00e3o? \u00c9 ele uma gra\u00e7a, uma anula\u00e7\u00e3o pura e simples da pena em que se incorreu? N\u00e3o. A medida desse perd\u00e3o est\u00e1 subordinada \u00e0 maneira porque perdoamos, ou seja, se n\u00e3o perdoamos n\u00e3o seremos perdoados. Fazendo do esquecimento das ofensas uma condi\u00e7\u00e3o absoluta, Deus n\u00e3o podia exigir que o homem fr\u00e1gil fizesse o que Ele, todo-poderoso, n\u00e3o faria. <span style=\"background-color: #ffff00;\">A ora\u00e7\u00e3o dominical \u00e9 uma nega\u00e7\u00e3o da vingan\u00e7a eterna de Deus.<\/span><br \/>7 \u2014 Para os homens que s\u00f3 tinham uma no\u00e7\u00e3o confusa da espiritualidade da alma a ideia do fogo material n\u00e3o era chocante, tanto mais que ela se encontra na cren\u00e7a popular proveniente do inferno pag\u00e3o e quase universalmente difundida. A eternidade das penas nada tinha de repugnante para criaturas submetidas desde s\u00e9culos \u00e0 legisla\u00e7\u00e3o do terr\u00edvel Jeov\u00e1. No pensamento de Jesus o fogo eterno s\u00f3 podia ser uma figura. Pouco lhe importava que essa figura fosse tomada ao p\u00e9 da letra, desde que devia servir de freio. Ele sabia muito bem que o tempo e o progresso se encarregariam de esclarecer o sentido aleg\u00f3rico, sobretudo quando, segundo a sua predi\u00e7\u00e3o, o Esp\u00edrito da Verdade viesse esclarecer todas as coisas aos homens.<br \/>A consequ\u00eancia essencial das penas irrevog\u00e1veis \u00e9 a inefic\u00e1cia do arrependimento. Mas Jesus nunca disse que o arrependimento fosse in\u00fatil perante Deus. Em todas as ocasi\u00f5es, pelo contr\u00e1rio, apresentou um Deus clemente, misericordioso, pronto a receber o filho pr\u00f3digo de volta para o lar paterno. S\u00f3 o mostrou inflex\u00edvel para o pecador endurecido. Mas assim mesmo, se tinha o castigo numa das m\u00e3os, tinha sempre o perd\u00e3o na outra, pronto a dispens\u00e1-lo ao culpado, desde que esse voltasse sinceramente a Ele. N\u00e3o \u00e9 verdadeira, pois, a imagem de um Deus impiedoso. Devemos observar tamb\u00e9m que Jesus n\u00e3o pronunciou contra ningu\u00e9m, mesmo contra os maiores culpados, a condena\u00e7\u00e3o irremiss\u00edvel.<br \/>8 \u2014 Todas as religi\u00f5es primitivas, de acordo com a natureza dos povos tiveram deuses guerreiros que combatiam \u00e0 frente dos ex\u00e9rcitos. O Jeov\u00e1 dos Hebreus lhes proporcionava todos os meios necess\u00e1rios para que exterminassem os seus inimigos, e os recompensava pela vit\u00f3ria ou os punia pela derrota. Segundo a ideia que faziam de Deus, acreditavam honr\u00e1-lo ou apazigu\u00e1-lo com o sangue dos animais ou dos homens. V\u00eam da\u00ed os sacrif\u00edcios sangrentos que tiveram papel t\u00e3o consider\u00e1vel em todas as religi\u00f5es antigas. Os Judeus haviam abolido os sacrif\u00edcios humanos. Os crist\u00e3os, apesar dos ensinos do Cristo, acreditavam por muito tempo honrar ao criador entregando ao fogo e \u00e0s torturas milhares daqueles que chamavam de hereges. Eram, sob outra forma, verdadeiros sacrif\u00edcios humanos, desde que o faziam para a maior gl\u00f3ria de Deus e com a realiza\u00e7\u00e3o de cerim\u00f4nias religiosas. Ainda hoje continuam invocando o Deus dos Ex\u00e9rcitos antes dos combates e o glorificam ap\u00f3s a vit\u00f3ria, e isso frequentemente pelas causas mais injustas e mais anticrist\u00e3s.<br \/>9 \u2014 Como o homem custa a se livrar de seus preju\u00edzos, dos seus h\u00e1bitos, das suas ideias primitivas! Quarenta s\u00e9culos nos separam de Mois\u00e9s e nossa gera\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ainda conserva os tra\u00e7os de antigas usan\u00e7as b\u00e1rbaras consagradas ou pelo menos aprovadas pela religi\u00e3o atual! Foi necess\u00e1ria a press\u00e3o da opini\u00e3o dos n\u00e3o-ortodoxos, dos que s\u00e3o olhados como her\u00e9ticos, para se p\u00f4r fim \u00e0s fogueiras e fazer compreender a verdadeira grandeza de Deus. Mas, na falta das fogueiras as persegui\u00e7\u00f5es materiais e morais continuaram em vigor, de tal maneira a ideia de um Deus cruel est\u00e1 enraizada no homem. Alimentado pelos sentimentos que lhes s\u00e3o inculcados na inf\u00e2ncia, poderia o homem estranhar que um Deus que lhe apresentaram honrado por atos b\u00e1rbaros condene \u00e0 torturas eternas, vendo sem piedade o sofrimento dos condenados? Foram os fil\u00f3sofos, os \u00edmpios, segundo alguns, que se escandalizaram de ver o nome de Deus profanado por atos indignos dele. Foram estes que o mostraram aos homens em toda a sua grandeza, despojando-o das paix\u00f5es e da mesquinhez humana que lhe havia atribu\u00eddo uma cren\u00e7a cega. A religi\u00e3o ganhou com isso em dignidade aquilo que havia perdido em prest\u00edgio exterior, porque se h\u00e1 menos homens apegados a ela pela forma, \u00e9 maior o n\u00famero dos que s\u00e3o mais sinceramente religiosos, pelo cora\u00e7\u00e3o e pelos sentimentos.<br \/>Mas ao lado desses, quantos foram levados, por ficarem apenas nas apar\u00eancias, \u00e0 nega\u00e7\u00e3o da Provid\u00eancia! Por n\u00e3o haverem feito que as cren\u00e7as religiosas acompanhassem o progresso da raz\u00e3o humana, os respons\u00e1veis por isso levaram uns ao de\u00edsmo, outros \u00e0 incredulidade absoluta, outros ao pante\u00edsmo, o que vale dizer que o homem se fez Deus a si mesmo na falta de outro mais perfeito.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"font-size: 21px;\"><strong><span style=\"color: #000000;\">Argumentos a favor das penas eternas<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">10 \u2014 Voltemos ao dogma da eternidade das penas. O principal argumento que se invoca em seu favor \u00e9 o seguinte.<br \/>Admite-se entre os homens que a gravidade da ofensa est\u00e1 na raz\u00e3o da qualidade do ofendido. Aquela que se comete contra um soberano \u00e9 considerada mais grave do que a cometida contra um simples cidad\u00e3o e punida com maior severidade. Ora, Deus \u00e9 mais que um soberano, pois \u00e9 infinito e por isso mesmo a ofensa a ele tamb\u00e9m se torna infinita, merecendo um castigo da mesma natureza, ou seja: eterno.<br \/>Refuta\u00e7\u00e3o \u2014Toda a refuta\u00e7\u00e3o \u00e9 um racioc\u00ednio que deve ter o seu ponto de partida, uma base em que se apoiar, premissas, numa palavra. Encontramos essas premissas nos pr\u00f3prios atributos de Deus.<br \/>Deus \u00e9 \u00fanico, eterno, imut\u00e1vel, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, infinito em todas as suas perfei\u00e7\u00f5es.<br \/>N\u00e3o se pode conceber Deus sem o infinito das suas perfei\u00e7\u00f5es, pois sem isso ele n\u00e3o seria Deus, desde que poder\u00edamos conceber um ser que possu\u00edsse o que lhe falta. Para que ele seja o \u00fanico acima de todas os seres \u00e9 necess\u00e1rio que nenhum o possa superar ou igualar seja no que for. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio que ele seja infinito em todos os sentidos. Os atributos de Deus, sendo infinitos, n\u00e3o podem aumentar nem diminuir. Sem isso, eles n\u00e3o seriam infinitos e Deus n\u00e3o seria perfeito. Se tir\u00e1ssemos a Deus a m\u00ednima parcela de um s\u00f3 de seus atributos, n\u00e3o mais ter\u00edamos Deus, pois seria poss\u00edvel a exist\u00eancia de um ser mais perfeito.<br \/>O infinito de uma qualidade exclue a possibilidade de existir uma qualidade contr\u00e1ria que a anulasse ou diminu\u00edsse. Um ser<br \/>infinitamente bom n\u00e3o pode ter a menor parcela de maldade, e um ser infinitamente mau n\u00e3o pode ter a menor parcela de bondade. Isso da mesma maneira que um objeto n\u00e3o poderia ser absolutamente negro com a mais leve nuan\u00e7a de branco, nem absolutamente branco com a m\u00ednima mancha negra. Colocado esse ponto, podemos opor ao argumento acima o seguinte racioc\u00ednio:<br \/>11 \u2014 Somente um ser infinito pode criar o infinito. O homem, limitado em suas virtudes, nos seus conhecimentos, nos seus poderes, nas suas aptid\u00f5es, na sua pr\u00f3pria exist\u00eancia terrena, s\u00f3 pode produzir coisas limitadas. Se o homem pudesse ser infinito no mal que pratica, tamb\u00e9m o poderia ser no bem que faz, e ele seria igual a Deus. Mas, se o homem fosse infinito no tocante ao bem, n\u00e3o faria nenhum mal, porque o bem absoluto \u00e9 a exclus\u00e3o de todo o mal.<br \/>Admitindo-se que uma ofensa tempor\u00e1ria praticada contra a divindade pudesse ser infinita, Deus, vingando-a por um castigo infinito seria infinitamente vingativo. E se ele o for, n\u00e3o pode ser infinitamente bom e misericordioso, pois um dos seus atributos \u00e9 a limita\u00e7\u00e3o do outro. Se ele n\u00e3o for infinitamente bom n\u00e3o \u00e9 perfeito, e se n\u00e3o for perfeito n\u00e3o \u00e9 Deus.<br \/>Se Deus for inexor\u00e1vel para o culpado arrependido, n\u00e3o \u00e9 misericordioso, e se n\u00e3o \u00e9 misericordioso, n\u00e3o \u00e9 infinitamente bom.<br \/>Porque daria Deus ao homem a lei do perd\u00e3o, se ele mesmo n\u00e3o devesse perdoar? Disso resultaria que o homem que perdoa os seus inimigos, retribuindo-lhes o mal com o bem, seria melhor que Deus que permanece surdo ao arrependimento do seu ofensor e lhe recusa, pela eternidade, a mais leve atenua\u00e7\u00e3o da pena.<br \/>Deus, que est\u00e1 em toda a parte e tudo v\u00ea, tem de ver as torturas dos condenados. Se ele for insens\u00edvel aos seus clamores pela eternidade, ser\u00e1 eternamente impiedoso, e se for impiedoso n\u00e3o \u00e9 infinitamente bom.<br \/>12 \u2014 A isto, respondem que o pecador que se arrepende antes de morrer obt\u00e9m a miseric\u00f3rdia de Deus e que o maior culpado pode se beneficiar com a sua gra\u00e7a.<br \/>N\u00e3o pode haver d\u00favida quanto a isto. Concebe-se que Deus somente perdoe aos arrependidos e seja inflex\u00edvel para os esp\u00edritos endurecidos. Mas se ele se mostra cheio de miseric\u00f3rdia para a alma que se arrepende antes de deixar o corpo, porque n\u00e3o faria o mesmo para aquela que se arrepende depois da morte? Qual a raz\u00e3o do arrependimento s\u00f3 ser eficaz durante a vida, representa apenas um instante e n\u00e3o o ser durante a eternidade? Se a bondade e a miseric\u00f3rdia de Deus ficam circunscritas a um determinado tempo, n\u00e3o s\u00e3o infinitas e Deus n\u00e3o \u00e9 infinitamente bom.<br \/>13 \u2014 Deus \u00e9 soberanamente justo. A soberana justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 a mais inexor\u00e1vel nem a que deixa impunes todas as faltas, mas a que considera da maneira mais rigorosa o bem e o mal, recompensando um e punindo o outro com perfeita equidade, sem jamais se enganar.<br \/>Se por uma falta passageira que resulta quase sempre da natureza imperfeita do homem, e muitas vezes decorre do meio em que ele se encontra, a alma pode ser punida eternamente, sem esperan\u00e7as de abrandamento e nem de perd\u00e3o, n\u00e3o existe nenhuma propor\u00e7\u00e3o entre a falta e a puni\u00e7\u00e3o. Portanto, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a.<br \/>Se o culpado se volta para Deus, arrependendo-se e pedindo para reparar o mal cometido, isso equivale a um retorno ao bem, aos bons sentimentos. Se o castigo for irrevog\u00e1vel, esse retorno ao bem n\u00e3o produz efeito, desde que Deus n\u00e3o leva em conta o bem e n\u00e3o pratica a justi\u00e7a. Entre os homens, o condenado que se emenda v\u00ea a sua pena comutada e \u00e0s vezes perdoada. Haveria, pois, na justi\u00e7a humana mais equidade que na justi\u00e7a Divina!<br \/>Se a condena\u00e7\u00e3o \u00e9 irrevog\u00e1vel, o arrependimento \u00e9 in\u00fatil. Nada podendo esperar do seu retorno ao bem, o culpado persiste no mal, de maneira que Deus n\u00e3o somente o condena a sofrer eternamente mas tamb\u00e9m a permanecer no mal por toda a eternidade. N\u00e3o h\u00e1 nisso nem justi\u00e7a, nem bondade.<br \/>14 \u2014 Sendo infinito em todas as coisas, Deus deve conhecer tudo no passado e no futuro. Deve saber, no momento da cria\u00e7\u00e3o de uma alma, se ela vai falir de maneira grave para ser condenada eternamente. Se n\u00e3o o sabe, seu saber n\u00e3o \u00e9 infinito e nesse caso Ele n\u00e3o \u00e9 Deus. Se o sabe, cria voluntariamente um ser condenado, desde \u00e0 sua forma\u00e7\u00e3o, \u00e0s torturas sem fim, e nesse caso n\u00e3o \u00e9 bom.<br \/>Se Deus, tocado pelo arrependimento de um condenado, pode estender a ele a sua miseric\u00f3rdia e o retirar do inferno, n\u00e3o existe penas eternas e o julgamento feito pelos homens est\u00e1 revogado.<br \/>15 \u2014 A doutrina das penas eternas, aceita de maneira absoluta, levanos for\u00e7osamente \u00e0 nega\u00e7\u00e3o ou a diminui\u00e7\u00e3o, de alguns atributos de Deus. Ela \u00e9, por conseguinte, inconcili\u00e1vel com a perfei\u00e7\u00e3o infinita, pelo que chegamos \u00e0 esta conclus\u00e3o:<br \/>Se Deus \u00e9 perfeito, a condena\u00e7\u00e3o eterna n\u00e3o existe; se ela existe, Deus n\u00e3o \u00e9 perfeito.<br \/>16 \u2014 Invoca-se ainda em favor do dogma da eternidade das penas o seguinte argumento:<br \/>A recompensa concedida aos bons sendo eterna, deve ter como contraparte uma puni\u00e7\u00e3o eterna. \u00c9 justo proporcionar a puni\u00e7\u00e3o \u00e0 recompensa.<br \/>Refuta\u00e7\u00e3o \u2014 Deus teria criado a alma com o fim de faz\u00ea-la feliz ou infeliz. \u00c9 evidente que a felicidade das criaturas deve ser o objetivo de sua cria\u00e7\u00e3o, pois de outra maneira Deus n\u00e3o seria bom. Ela atinge a felicidade pelo pr\u00f3prio m\u00e9rito. Conquistado o m\u00e9rito, ela n\u00e3o pode perder o seu fruto, porque ent\u00e3o degeneraria. A eternidade da felicidade \u00e9 pois uma consequ\u00eancia da sua natureza imortal.<br \/>Mas antes de chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, ela ter\u00e1 lutas a sustentar, combates a travar com as m\u00e1s paix\u00f5es. N\u00e3o a tendo criado perfeita, mas capaz de se aperfei\u00e7oar, a fim de que tenha o m\u00e9rito de suas obras, ela pode falir. Suas quedas decorrem de sua fraqueza natural. Se ela tivesse de ser condenada eternamente por uma queda, poder\u00edamos perguntar porque Deus<br \/>n\u00e3o a criou mais forte.<br \/>A puni\u00e7\u00e3o sofrida pela alma \u00e9 uma advert\u00eancia de que ela fez o mal. Deve ter como resultado reconduzi-la ao bom caminho. Mas se a pena fosse irremiss\u00edvel, seu desejo de se corrigir seria in\u00fatil. Assim, o fim providencial da cria\u00e7\u00e3o n\u00e3o poderia ser atingido, porque haveria seres predestinados \u00e0 felicidade e outros \u00e0 desgra\u00e7a. Se uma alma culpada se arrepende, pode tornar-se boa; podendo tornar-se boa, pode aspirar \u00e0 felicidade. Deus seria justo se lhe recusasse esses meios?<br \/>Sendo o bem o objetivo final da cria\u00e7\u00e3o, a felicidade, que \u00e9 o seu pr\u00e9mio, deve ser eterna. Ao mesmo tempo, o castigo que \u00e9 um meio de levar ao bem deve ser tempor\u00e1rio. A mais vulgar no\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a, mesmo entre os homens, diz que n\u00e3o se pode castigar perpetuamente aquele que tem o desejo do bem e se disp\u00f5e a pratic\u00e1-lo.<br \/>17 \u2014 Um \u00faltimo argumento em favor da eternidade das penas \u00e9 o seguinte:<br \/>O temor de um castigo eterno \u00e9 o freio. Se o eliminarmos, nada mais tendo a temer, o homem se entregar\u00e1 a todos os desregramentos.<br \/>Refuta\u00e7\u00e3o \u2014 Esse racioc\u00ednio seria justo se ao eliminarmos a eternidade das penas suprim\u00edssemos toda e qualquer san\u00e7\u00e3o penal. A situa\u00e7\u00e3o feliz ou infeliz na vida futura decorre de uma rigorosa consequ\u00eancia da justi\u00e7a de Deus, enquanto uma identidade de situa\u00e7\u00e3o entre o homem bom e o perverso seria a nega\u00e7\u00e3o dessa justi\u00e7a. Pelo fato de n\u00e3o ser eterno, o castigo n\u00e3o tem de ser menos penoso. Ele se torna tanto mais tem\u00edvel, quanto mais se pode aceit\u00e1-lo, e tanto mais aceit\u00e1vel, quanto mais racional. Uma penalidade em que n\u00e3o se pode crer n\u00e3o \u00e9 um freio, e a eternidade das penas est\u00e1 nesse caso.<br \/>A cren\u00e7a nas penas eternas, como j\u00e1 dissemos, teve a sua utilidade e a sua raz\u00e3o de ser em certa \u00e9poca. Hoje, n\u00e3o somente ela deixou de assustar, como acabou por semear a incredulidade. Antes de coloc\u00e1-la como uma necessidade, seria necess\u00e1rio demonstrar a sua realidade. Conviria, sobretudo que se pudesse ver a sua efic\u00e1cia no exemplo daqueles que a preconizam e se esfor\u00e7am para a demonstrar. Infelizmente, entre eles, s\u00e3o bem poucos os que provam pelos seus atos que realmente est\u00e3o atemorizados. Se essa cren\u00e7a \u00e9 impotente para reprimir o mal entre aqueles que dizem acreditar nela, que dom\u00ednio poderia ter sobre os que n\u00e3o acreditam?<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; font-size: 21px;\"><br \/><strong>Impossibilidade material das penas eternas<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>18 \u2014 At\u00e9 aqui, o dogma das penas eternas s\u00f3 foi contraditado pelo racioc\u00ednio. Vamos agora demonstrar que ele est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com os fatos positivos que temos diante dos olhos e que provam a sua impossibilidade.<br \/>De acordo com esse dogma, o destino da alma ap\u00f3s a morte \u00e9 fixado de maneira irrevog\u00e1vel. Fica assim definitivamente barrado o seu progresso. Ora, a alma progride ou n\u00e3o? Eis toda a quest\u00e3o. Se ela progride a eternidade das penas \u00e9 inadmiss\u00edvel.<br \/>Podemos duvidar desse progresso, quando vemos a imensa variedade de aptid\u00f5es morais e intelectuais existentes na Terra, desde o selvageat\u00e9 o homem civilizado? Quando se v\u00eaem as diferen\u00e7as que um mesmopovo apresenta de um s\u00e9culo para outro? Se admitirmos que n\u00e3o s\u00e3o mais as mesmas almas, teremos de aceitar que Deus cria as almas em todos os graus de desenvolvimento, de acordo com os tempos e os lugares, favorecendo umas, enquanto relega outras \u00e0 uma inferioridade perp\u00e9tua. Isso \u00e9 incompat\u00edvel com a justi\u00e7a, que deve ser\u00e1 mesma para todas as criaturas.<br \/>19 \u2014 \u00c9 incontest\u00e1vel que a alma, intelectual e moralmente n\u00e3o desenvolvida, como a dos povos b\u00e1rbaros, n\u00e3o pode dispor das mesmas condi\u00e7\u00f5es de felicidade, das mesmas aptid\u00f5es para gozar dos esplendores do infinito, que tem aquela cujas faculdades j\u00e1 se encontram amplamente desenvolvidas. Se essas almas, portanto, n\u00e3o progredirem, n\u00e3o podem, mesmo nas condi\u00e7\u00f5es mais favor\u00e1veis, gozar pela eternidade sen\u00e3o de uma felicidade muito reduzida. Chega-se assim for\u00e7osamente, de acordo com uma rigorosa justi\u00e7a, \u00e0 conclus\u00e3o de que as almas mais adiantadas s\u00e3o as mesmas que antes se apresentavam como atrasadas e depois progrediram. Aqui tocamos na grave quest\u00e3o da pluralidade das exist\u00eancias, como \u00fanico meio racional de se resolver a dificuldade. N\u00e3o obstante, a deixaremos de lado para s\u00f3 considerar a alma numa \u00fanica exist\u00eancia.<br \/>20\u2014Consideremos, como tantos que existem, um jovem de vinte anos, ignorante, entregue aos instintos inferiores negando Deus e sua alma,desordeiro, cometendo toda esp\u00e9cie de maldades. Colocado, entretanto, num meio favor\u00e1vel, trabalha e se instruo, corrige-se pouco a pouco e por fim se transforma numa criatura piedosa. N\u00e3o \u00e9 esse um exemplo palp\u00e1vel do progresso da alma durante a vida, e todos os dias n\u00e3o vemos casos semelhantes?<br \/>Esse homem morre em santidade numa idade avan\u00e7ada e certamente a sua salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 assegurada. Mas o que teria sido<br \/>dele, se um acidente o tivesse levado \u00e0 morte quarenta ou cinquenta anos antes? Estaria dentro de todas as condi\u00e7\u00f5es para ser um condenado, e uma vez condenado, estaria impedido de realizar qualquer progresso.<br \/>Eis o caso de um homem que se salvou por ter vivido bastante e que, segundo a doutrina das penas eternas, jamais se teria salvado se tivesse vivido menos, o que poderia acontecer por um acidente qualquer. Mas desde que a sua alma pode progredir num determinado tempo, porque n\u00e3o progrediria nesse mesmo tempo ap\u00f3s a morte, se uma causa independente da sua vontade a tivesse impedido de faz\u00ea-lo em vida? Porque Deus haveria ent\u00e3o de recusar-lhe os meios? O arrependimento, embora tardio, n\u00e3o \u00e9 menos efetivo do que se viesse em tempo. Mas se desde o instante da morte uma condena\u00e7\u00e3o irremiss\u00edvel o atingiu, seu arrependimento n\u00e3o tem mais valor para a eternidade e sua capacidade de progredir ficou para sempre anulada.<br \/>21 \u2014 O dogma da eternidade das penas \u00e9 pois inconcili\u00e1vel com o progresso da alma, pois lhe op\u00f5e um obst\u00e1culo insuper\u00e1vel. Esses dois princ\u00edpios se anulam for\u00e7osamente um pelo outro. Se um existe, o outro n\u00e3o pode existir. Qual dos dois realmente existe? A lei do progresso \u00e9 evidente, n\u00e3o \u00e9 uma teoria, mas um fato constatado pelas experi\u00eancias. \u00c9 uma lei natural, lei divina, imprescrit\u00edvel. Assim, desde que ela existe e n\u00e3o pode se conciliar com a outra, \u00e9 que a outra n\u00e3o existe. Se o dogma da eternidade das penas fosse erdadeiro, Santo Agostinho, S\u00e3o Paulo e muitos outros jamais teriam visto o c\u00e9u se ouvessem morrido antes do progresso que os levou \u00e0 convers\u00e3o.<br \/>A esta afirma\u00e7\u00e3o respondem que a convers\u00e3o desses santos n\u00e3o resultou de nenhum progresso da alma, mas da gra\u00e7a que lhes foi concedida e pela qual se sentiram tocados.<br \/>Mas isto \u00e9 jogar com palavras. Se eles praticaram o mal e mais tarde se voltaram para o bem \u00e9 que se tornaram melhores. Consequentemente: progrediram. Deus lhes teria concedido ent\u00e3o, por um favor especial, a gra\u00e7a de se corrigirem? Porque a eles e n\u00e3o a outros? \u00c9 sempre a doutrina dos privil\u00e9gios, incompat\u00edvel com a justi\u00e7a de Deus e seu amor sem distin\u00e7\u00e3o para com todas as criaturas.<br \/>Segundo a doutrina esp\u00edrita, segundo as pr\u00f3prias palavras do Evangelho, dentro da l\u00f3gica e da mais rigorosa justi\u00e7a, o homem \u00e9 o que as suas pr\u00f3prias obras o fazem, durante esta vida e ap\u00f3s a morte. Nada ele deve a qualquer favoritismo, pois Deus o recompensa de acordo com os seus esfor\u00e7os e o pune pela sua neglig\u00eancia, por tanto tempo quanto durar a neglig\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; font-size: 21px;\">A doutrina das penas eternas passou do tempo<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">22 \u2014 A cren\u00e7a na eternidade das penas materiais permaneceu como um temor necess\u00e1rio at\u00e9 que os homens pudessem compreender o poder da moral. Aconteceu como com as crian\u00e7as que podem ser contidas durante algum tempo pela amea\u00e7a de certos seres fant\u00e1sticos que lhes causam pavor, mas chega o momento em que a raz\u00e3o da crian\u00e7a recusa por si mesma essas est\u00f3rias, e ent\u00e3o seria absurdo pretender govern\u00e1-las pelos mesmos meios. Se continuarem a dizer que essas f\u00e1bulas s\u00e3o verdadeiras e devem ser tomadas ao p\u00e9 da letra, elas perder\u00e3o a confian\u00e7a nas pessoas. \u00c9 o que acontece atualmente com a humanidade. Ela saiu da inf\u00e2ncia e se libertou dessas r\u00e9deas artificiais. O homem n\u00e3o \u00e9 mais esse instrumento passivo que se curva \u00e0 for\u00e7a material, nem a criatura cr\u00e9dula que tudo aceitava de olhos fechados.<br \/>23 \u2014 A cren\u00e7a \u00e9 um ato de entendimento e por isso n\u00e3o pode ser imposta. Se, durante um certo per\u00edodo da evolu\u00e7\u00e3o da humanidade, o dogma da eternidade das penas foi inofensivo, salutar mesmo, chegou agora o momento em que ele se torna<br \/>perigoso. Com efeito, desde o momento que lhe imponham esse dogma como verdade absoluta, quando a raz\u00e3o o repele, necessariamente acontecer\u00e1 uma destas coisas: ou o homem que deseja crer procura uma cren\u00e7a mais racional e se afasta da que lhe querem impor, ou deixa inteiramente de crer. \u00c9 evidente, para quem quer estudar friamente a quest\u00e3o, que nos nossos dias a eternidade das penas produziu maior n\u00famero de materialistas e ateus do que todos os fil\u00f3sofos.<br \/>As ideias seguem um curso necessariamente progressivo e n\u00e3o se pode governar os homens sen\u00e3o seguindo esse curso. Querer det\u00ea-los ou faz\u00ea-los retroceder, ou simplesmente parar onde se encontram, quando ele est\u00e1 avan\u00e7ando, seria perd\u00ea-los. Seguir ou n\u00e3o seguir esse movimento \u00e9 uma quest\u00e3o de vida ou de morte, tanto para as religi\u00f5es como para os governos. \u00c9 isso um bem? Ou \u00e9 um mal? Certamente \u00e9 um mal aos olhos dos que, vivendo no passado, percebem que esse passado lhes escapa. Para os que v\u00eam o futuro, \u00e9 o cumprimento da lei do progresso que \u00e9 uma lei de Deus. E contra as leis de Deus \u00e9 in\u00fatil qualquer resist\u00eancia: lutar contra a sua vontade \u00e9 querer despeda\u00e7ar-se.<br \/>Porque, pois, querer a toda for\u00e7a sustentar uma cren\u00e7a que cai em decrepitude e que na verdade produz mais mal do que bem \u00e0<br \/>pr\u00f3pria religi\u00e3o? Infelizmente, \u00e9 triste dizer, uma quest\u00e3o material domina neste ponto o problema religioso. Essa cren\u00e7a tem sido largamente explorada, gra\u00e7as \u00e0 ideia de que as portas do c\u00e9u podem ser abertas com dinheiro, livrando-nos do inferno. As somas que ela tem produzido e que ainda produz s\u00e3o incalcul\u00e1veis: \u00e9 o imposto cobrado sobre o medo da eternidade. Sendo facultativo, o produto desse imposto \u00e9 proporcional ao dom\u00ednio da cren\u00e7a . Se esta n\u00e3o mais existir, a arrecada\u00e7\u00e3o desaparece. A crian\u00e7a d\u00e1 o seu doce de boa vontade a quem lhe promete que vai espantar o lobisomem, mas quando a crian\u00e7a n\u00e3o acredita mais no lobisomem, prefere comer o doce.<br \/>24 \u2014 A nova revela\u00e7\u00e3o, fornecendo ideias mais aceit\u00e1veis sobre a vida futura e demonstrando que a salva\u00e7\u00e3o pode ser alcan\u00e7ada atrav\u00e9s das pr\u00f3prias obras, deve enfrentar uma oposi\u00e7\u00e3o tanto mais forte, quanto ela vem estancar a mais importante fonte de arrecada\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que sempre acontece quando uma descoberta ou uma inven\u00e7\u00e3o vem modificar as situa\u00e7\u00f5es. Os que vivem dos antigos costumes sempre os defendem, procurando desacreditar as novidades, por mais vantajosas que sejam.<br \/>Acreditais, por exemplo, que a arte de imprimir, n\u00e3o obstante os benef\u00edcios que devia trazer \u00e0 humanidade, pudesse ser aclamada<br \/>pela numerosa classe dos copistas? N\u00e3o, certamente. Eles deviam maldiz\u00ea-la. Assim tamb\u00e9m aconteceu com as m\u00e1quinas, com as estradas de ferro e centenas de outras coisas.<br \/>Aos olhos dos incr\u00e9dulos, o dogma da eternidade das penas \u00e9 uma simples futilidade que lhes provoca o riso. Aos olhos do fil\u00f3sofo, a quest\u00e3o se torna grave no seu aspecto social pelos abusos a que tem servido, de motivo. O homem verdadeiramente religioso considera que a dignidade da religi\u00e3o depende da destrui\u00e7\u00e3o desses abusos e conseq\u00fcentemente das suas causas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; font-size: 21px;\"><br \/><strong>Ezequiel contra a eternidade das penas e o pecado original<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>25 \u2014 Aos que pretendem encontrar na B\u00edblia a justifica\u00e7\u00e3o da eternidade das penas podemos opor os textos contr\u00e1rios, que n\u00e3o permitem nenhuma d\u00favida a respeito. As seguintes palavras de Ezequiel s\u00e3o a mais decisiva nega\u00e7\u00e3o, n\u00e3o somente das penas irremiss\u00edveis, mas tamb\u00e9m da possibilidade de recair sobre toda a sua descend\u00eancia a falta cometida pelo pai do g\u00e9nero humano:<br \/>1) Veio a mim a palavra do Senhor, dizendo: 2) Que tendes v\u00f3s, v\u00f3s que acerca da terra de Israel proferiste este prov\u00e9rbio, dizendo: Os pais comeram uvas verdes, e os dentes dos filhos \u00e9<br \/>que se embotaram? 3) T\u00e3o certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, jamais direis este prov\u00e9rbio em Israel. 4) Eis que todas as almas s\u00e3o minhas; como a alma do pai, tamb\u00e9m a alma do filho \u00e9 minha; a alma que pecar, essa morrer\u00e1. 5) Sendo, pois, o homem justo e fazendo ju\u00edzo e justi\u00e7a; 7) n\u00e3o oprimindo a ningu\u00e9m, tornando ao devedor a coisa penhorada, n\u00e3o roubando, dando o seu p\u00e3o ao faminto e cobrindo ao nu com vestes; 8) n\u00e3o dando seu dinheiro \u00e0 usura, n\u00e3o recebendo juros, desviando a sua m\u00e3o da injusti\u00e7a e fazendo verdadeiro ju\u00edzo entre homem e homem; 9) andando nos meus estatutos, guardando os meus ju\u00edzos e procedendo retamente o tal justo certamente viver\u00e1, diz o Senhor Deus.<br \/>10) Se ele gerar um filho ladr\u00e3o, derramador de sabgue, que fizer a seu irm\u00e3o qualquer destas coisas. 13) esse filho morrer\u00e1, por todas estas abomina\u00e7\u00f5es que ele fez e o seu sangue ser\u00e1 sobre ele.<br \/>14) Eis que, se ele gerar um filho que veja todos os pecados que seu pai fez e, vendo-os, n\u00e3o cometer coisas semelhantes, 17) n\u00e3o morrer\u00e1 pela iniquidade de seu pai, mas certamente viver\u00e1. 18) Quanto a seu pai, porque praticou extors\u00e3o, roubou os bens do pr\u00f3ximo e fez o que n\u00e3o era bom no meio do seu povo, eis que morrer\u00e1 por causa de sua iniquidade.<br \/>19) Mas direis: Por que n\u00e3o leva o filho a iniquidade do pai? Porque o filho fez o que era reto e justo e guardou todos os meus estatutos e os praticou, por isso certamente viver\u00e1.<br \/>20) A alma que pecar, essa morrer\u00e1; o filho n\u00e3o levar\u00e1 a iniquidade do pai, nem o pai a iniquidade do filho; a justi\u00e7a do justo ficar\u00e1 sobre ele e a perversidade do perverso cair\u00e1 sobre este.<br \/>21) Mas se o perverso se converter de todos os pecados que cometeu e guardar todos os meus estatutos, e fizer o que \u00e9 reto e justo, certamente viver\u00e1, n\u00e3o ser\u00e1 morto. 22) De todas as transgress\u00f5es que cometeu n\u00e3o haver\u00e1 lembran\u00e7a contra ele; pela justi\u00e7a que praticou, viver\u00e1.<br \/>23) Acaso tenho eu prazer na morte do perverso? diz o Senhor Deus. N\u00e3o, desejo eu antes que ele se converta do seu caminho e viva. (Ezequiel, cap, XVIII, vs. 1 a 23.)<br \/>11) T\u00e3o certo como eu vivo, diz o Senhor Deus, n\u00e3o tenho prazer na morte do perverso, mas em que o perverso se converta do seu caminho e viva. (Ezequiel, cap. XXXIII, v. 11)25<br \/>25 Nota-se a falta do vers\u00edculo 6 do cap. XVIII de Ezequiel. A omiss\u00e3o foi proposital. Kardec deixou de lado esse vers\u00edculo porque ele se refere a ordena\u00e7\u00f5es judaicas da lei de pureza (superadas pelo Evangelho) como se pode ver conferindo-se o texto com a B\u00edblia. Como se pode alegar que a omiss\u00e3o oculta segunda inten\u00e7\u00e3o o que se j\u00e1 tem feito, damos aqui esse vers\u00edculo: &#8220;N\u00e3o comendo carne sacrificada nos altos, nem levantando os olhos para os \u00eddolos da casa de Israel, nem contaminando a mulher do seu pr\u00f3ximo, nem se chegando \u00e0 mulher na sua menstrua\u00e7\u00e3o.&#8221; Como se v\u00ea, esse vers\u00edculo quebra a harmonia do texto em sua aplica\u00e7\u00e3o atual. Os vs. 12, 15 e 16 Scram tamb\u00e9m suprimidos porque repetem aquelas ordena\u00e7\u00f5es. Tanto no original franc\u00eas come ft&#8217;n todas as tradu\u00e7\u00f5es correntes entre n\u00f3s ocorreu tamb\u00e9m um erro de cita\u00e7\u00e3o que sorigimos aqui O vers\u00edculo 23 do cap. XVIII foi mencionado como pertencente ao cap, XXVIII. Um pequeno engano, certamente gr\u00e1fico, ainda hoje mantido nas pr\u00f3prias edi\u00e7\u00f5es francesas e belgas. (N. do T)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/><span style=\"font-size: 21px;\"><strong>AS PENAS FUTURAS SEGUNDO O ESPIRITISMO<\/strong><\/span><br \/><strong>A carne \u00e9 fraca<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>H\u00e1 tend\u00eancias viciosas que s\u00e3o evidentemente inerentes ao Esp\u00edrito, pois que se ligam mais ao moral do que ao f\u00edsico. Outras parecem antes resultar do organismo e por isso acredita-se que acarretam menos responsabilidade: tais s\u00e3o as predisposi\u00e7\u00f5es \u00e0 c\u00f3lera, \u00e0 pregui\u00e7a, \u00e0 sensualidade etc.<br \/>Hoje est\u00e1 perfeitamente reconhecido pelos fil\u00f3sofos espiritualistas que os \u00f3rg\u00e3os cerebrais correspondentes \u00e0s diversas aptid\u00f5es devem o seu desenvolvimento \u00e0 atividade do Esp\u00edrito. E<strong>sse desenvolvimento \u00e9, assim, um efeito e n\u00e3o uma causa.<\/strong> Um homem n\u00e3o \u00e9 m\u00fasico porque tenha a bossa da m\u00fasica, mas ele tem essa bossa porque o seu esp\u00edrito \u00e9 m\u00fasico.<br \/>Se a a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito influi no c\u00e9rebro, deve igualmente influir sobre outras partes do organismo. O Esp\u00edrito \u00e9 assim o art\u00edfice do seu pr\u00f3prio corpo que ele modela, por assim dizer, apropriando-o \u00e0s suas necessidades e \u00e0 manifesta\u00e7\u00e3o das suas tend\u00eancias. Assim sendo, a perfei\u00e7\u00e3o corporal das ra\u00e7as adiantadas n\u00e3o seria consequ\u00eancia de cria\u00e7\u00f5es distintas, mas o resultado do trabalho do esp\u00edrito que aperfei\u00e7oa o seu instrumento na medida em que as suas faculdades se desenvolvem.<br \/>Por uma consequ\u00eancia natural desse princ\u00edpio, as disposi\u00e7\u00f5es morais do Esp\u00edrito devem modificar as fun\u00e7\u00f5es sangu\u00edneas, dando-lhes maior ou menor atividade, bem como provocar secre\u00e7\u00f5es mais ou menos abundantes da b\u00edlis ou de outros fluidos. \u00c9 assim, por exemplo, que o glut\u00e3o sente a boca encher-se de \u00e1gua ao ver comidas apetitosas. N\u00e3o \u00e9 a comida em si que pode excitar os \u00f3rg\u00e3os do gosto, desde que n\u00e3o h\u00e1 nenhum contato.<br \/>\u00c9 pois o Esp\u00edrito, cuja sensualidade foi despertada, que age pelo pensamento sobre esses \u00f3rg\u00e3os, enquanto para outra pessoa a vis\u00e3o dessa comida n\u00e3o produz nenhum efeito <span style=\"font-size: 12px;\">(26*)<\/span><br \/>\u00c9 ainda por essa mesma raz\u00e3o que uma pessoa sens\u00edvel verte l\u00e1grimas com facilidade. N\u00e3o \u00e9 a exist\u00eancia de l\u00e1grimas em abund\u00e2ncia que d\u00e1 sensibilidade ao Esp\u00edrito, mas \u00e9 a sensibilidade do Esp\u00edrito que provoca a secre\u00e7\u00e3o abundante de l\u00e1grimas. Sob a influ\u00eancia da sensibilidade espiritual o organismo apropriou-se a essa disposi\u00e7\u00e3o natural do Espirito, como o do glut\u00e3o se apropriou \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do seu Esp\u00edrito.<br \/>Seguindo esta ordem de ideias, compreende-se que um esp\u00edrito irasc\u00edvel deve impulsionar um temperamento bilioso, de maneira que um homem n\u00e3o \u00e9 col\u00e9rico por ser bilioso, mas \u00e9 bilioso porque o seu Esp\u00edrito \u00e9 col\u00e9rico. Acontece o mesmo com todas as demais disposi\u00e7\u00f5es instintivas. Um Esp\u00edrito fraco e indolente dar\u00e1 ao seu organismo uma condi\u00e7\u00e3o de atonia em rela\u00e7\u00e3o ao seu<br \/>26 As famosas experi\u00eancias de Paviov com a saliva\u00e7\u00e3o dos c\u00e3es demonstraram, no campo da psicologia fisiol\u00f3gica, materialista, a verdade desta firma\u00e7\u00e3o de Kardec. Os reflexos condicionados n\u00e3o devem o seu condicionamento \u00e0 a\u00e7\u00e3o dos alimentos sobre os \u00f3rg\u00e3os gustativos, mas ao conhecimento ental\u00fao animal aos sinais da campainha que anunciam o alimento. No homem, esse processo \u00e9 mais refinado. (N. de T.)<br \/>car\u00e1ter, enquanto um esp\u00edrito ativo e en\u00e9rgico transmitir\u00e1 ao seu sangue e aos seus nervos disposi\u00e7\u00f5es bastante diferentes. A a\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito sobre o f\u00edsico \u00e9 de tal maneira evidente, que vemos frequentemente graves desordens org\u00e2nicas se produzirem por efeito de violentas como\u00e7\u00f5es morais. A express\u00e3o comum: a emo\u00e7\u00e3o p\u00f4s-lhe o sangue a ferver n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o desprovida de senso como se poderia pensar. Ora, o que poderia agitar o sangue se n\u00e3o o Esp\u00edrito por suas disposi\u00e7\u00f5es morais?27<br \/>Pode-se admitir que o temperamento \u00e9, pelo menos em parte, determinado pela natureza do Esp\u00edrito, que \u00e9 causa e n\u00e3o efeito. Dizemos em parte porque h\u00e1 casos em que o f\u00edsico influi evidentemente sobre o moral. \u00c9 quando um estado m\u00f3rbido ou anormal \u00e9 determinado por uma causa externa, acidental, independente do Esp\u00edrito, como a temperatura, o clima, os v\u00edcios heredit\u00e1rios que influem na constitui\u00e7\u00e3o, um mal-estar passageiro etc. O moral do Esp\u00edrito pode ent\u00e3o ser afetado nas suas manifesta\u00e7\u00f5es pelo estado patol\u00f3gico, sem que a sua natureza pr\u00f3pria seja por isso modificada.<br \/>27 A Medicina Psicossom\u00e1tica, a Psicoterap\u00eautica em geral, e atualmente a Parapsicologia vieram confirmar cientificamente, em nossos dias, atrav\u00e9s de pesquisas e experi\u00eancias, a verdade desse princ\u00edpio. (N. do T.)<br \/>Desculpar-se dos seus defeitos com a fraqueza da carne \u00e9, pois, lan\u00e7ar m\u00e3o de um sofisma para escapar \u00e0 responsabilidade. A carne s\u00f3 \u00e9 fraca quando o Esp\u00edrito \u00e9 fraco, o que inverte a quest\u00e3o e deixa ao Esp\u00edrito a responsabilidade de todos os seus atos. A carne, que n\u00e3o tem pensamento nem vontade, jamais prevalece sobre o Esp\u00edrito, que \u00e9 o ser pensante e dotado de vontade. \u00c9 o Esp\u00edrito que d\u00e1 \u00e0 carne as qualidades correspondentes aos seus instintos, como um artista imprime na sua obra material o selo do seu g\u00eanio. O Esp\u00edrito liberto dos instintos da animalidade modela um corpo que n\u00e3o \u00e9 mais um tirano das suas aspira\u00e7\u00f5es de espiritualiza\u00e7\u00e3o. \u00c9 ent\u00e3o que o homem come para viver, porque viver \u00e9 uma necessidade, mas n\u00e3o vive para comer.<br \/>A responsabilidade moral dos nossos atos na vida permanece, portanto, inteiramente nossa. Mas a raz\u00e3o nos diz que as consequ\u00eancias dessa responsabilidade devem estar em rela\u00e7\u00e3o com o desenvolvimento intelectual do Esp\u00edrito. Quanto mais ele for esclarecido, menos desculp\u00e1vel ser\u00e1, porque com a<br \/>intelig\u00eancia e o senso moral nascem as no\u00e7\u00f5es do bem e do mal, do justo e do injusto28.<br \/>Esta lei explica os insucessos da Medicina em certos casos. Desde que o temperamento \u00e9 um efeito e n\u00e3o causa, os esfor\u00e7os feitos para modific\u00e1-lo s\u00e3o necessariamente embara\u00e7ados pelas disposi\u00e7\u00f5es morais do Esp\u00edrito, que op\u00f5e uma resist\u00eancia inconsciente e neutraliza a a\u00e7\u00e3o terap\u00eautica. \u00c9 pois sobre a causa primeira que se deve agir. Dai, se poss\u00edvel, coragem ao poltr\u00e3o e vereis cessarem os efeitos fisiol\u00f3gicos do medo29.<br \/>28 Kardec deixa de lado, nesse texto, o problema das influencia\u00e7\u00f5es esp\u00edritas na conduta humana, para acentuar a responsabilidade individual e intransfer\u00edvel de cada um na pr\u00e1tica dos seus atos. Mesmo porque as influ\u00eancias esp\u00edritas dependem das condi\u00e7\u00f5es morais do homem. Assim como n\u00e3o podemos atribuir \u00e0 carne as nossas imperfei\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m n\u00e3o podemos atribu\u00ed-las aos nossos inimigos ou perseguidores invis\u00edveis. Pois eles s\u00f3 conseguem agir sobre n\u00f3s na medida em que correspondemos aos seus est\u00edmulos. Sem a nossa aceita\u00e7\u00e3o, as suas sugest\u00f5es e at\u00e9 mesmo os seus impulsos n\u00e3o produzem efeito. (N. do T.)<br \/>29 Esta posi\u00e7\u00e3o esp\u00edrita coincide hoje plenamente com a posi\u00e7\u00e3o das Ci\u00eancias no campo da Medicina. Bastaria o desenvolvimento da Medicina Psicossom\u00e1tica para demonstr\u00e1-lo. Mas o avan\u00e7o da Parapsicologia vai mais longe, abrindo caminho para a compreens\u00e3o do problema da influencia\u00e7\u00e3o espiritual e das consequ\u00eancias da reencarna\u00e7\u00e3o na vida presente. Leia-se a respeito o livro La Guerison parIa pens\u00e9e, de Robert Tocquet, Paris, 1970, e o livro 20 Casos Sugestivos de Reencarna\u00e7\u00e3o, de lan Stevenson, tradu\u00e7\u00e3o da Editora Edicel, Bras\u00edlia (DF), 1970. (N. do T.)<br \/>Isto prova mais uma vez a necessidade, para a arte de curar, de levar em conta a a\u00e7\u00e3o do elemento espiritual sobre o organismo. (Ver Revista Esp\u00edrita de Mar\u00e7o de 1869).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/><span style=\"font-size: 21px;\"><strong>Fontes da Doutrina Esp\u00edrita sobre as penas futuras<\/strong><\/span><br \/>A Doutrina Esp\u00edrita, no tocante \u00e0s penas futuras n\u00e3o se funda, como nos outros pontos, sobre uma teoria preconcebida. N\u00e3o apresenta um sistema para substituir outro sistema. Em todos os seus aspectos ela se apoia nas observa\u00e7\u00f5es, e \u00e9 isso o que faz a sua autoridade. Ningu\u00e9m imaginou que as almas, ap\u00f3s a morte, devessem estar nesta ou naquela situa\u00e7\u00e3o. Foram os pr\u00f3prios seres que j\u00e1 deixaram a Terra que vieram nos iniciar nos mist\u00e9rios da vida futura, descrever a sua situa\u00e7\u00e3o feliz ou infeliz, as impress\u00f5es que sofreram e a transforma\u00e7\u00e3o por que passaram com a morte do corpo. Numa palavra: vieram completar nesse ponto o ensino do Cristo.<br \/>N\u00e3o se trata, por\u00e9m, do relato de um \u00fanico Esp\u00edrito, que poderia ver as coisas apenas \u00e0 sua maneira, sob um \u00fanico aspecto, ou ser ainda dominado pelos preju\u00edzos da sua vida terrena. Nem se trata de uma revela\u00e7\u00e3o particular, feita a um \u00fanico indiv\u00edduo, que poderia se deixar enganar pelas apar\u00eancias. Nem de uma vis\u00e3o est\u00e1tica que se prestasse \u00e0s ilus\u00f5es, n\u00e3o sendo frequentemente mais do que um reflexo da imagina\u00e7\u00e3o exaltada.<br \/>Trata-se, pelo contr\u00e1rio, de inumer\u00e1veis exemplos fornecidos por Esp\u00edritos de todas as categorias, desde a mais elevada at\u00e9 a mais baixa da escala, com a ajuda de numerosos intermedi\u00e1rios espalhados por todos os pontos da Terra, de tal maneira que a revela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio de ningu\u00e9m, que cada um pode por si mesmo ver e observar e ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a crer sobre a f\u00e9 dos outros.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000; font-size: 21px;\"><br \/><strong>C\u00d3DIGO PENAL DA VIDA FUTURA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>O Espiritismo n\u00e3o se apoia, pois, numa autoridade de natureza particular para formular um c\u00f3digo fantasioso. Suas leis, no que toca ao futuro da alma s\u00e3o deduzidas de observa\u00e7\u00f5es positivas sobre os fatos e podem ser resumidas da maneira seguinte:<br \/>1\u00b0) A alma ou Esp\u00edrito sofre na vida espiritual as consequ\u00eancias de todas as imperfei\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o se libertou durante a vida corp\u00f3rea. Seu estado feliz ou infeliz \u00e9 inerente ao grau de sua depura\u00e7\u00e3o ou das suas imperfei\u00e7\u00f5es.<br \/>2\u00b0) A felicidade perfeita \u00e9 inerente \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, quer dizer a purifica\u00e7\u00e3o completa do Esp\u00edrito. Toda imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 ao mesmo tempo uma causa de sofrimento e de priva\u00e7\u00e3o de ventura, da mesma maneira que toda qualidade adquirida \u00e9 uma causa de ventura e de atenua\u00e7\u00e3o dos sofrimentos.<br \/>3\u00b0) N\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 imperfei\u00e7\u00e3o da alma que n\u00e3o acarrete consequ\u00eancias desagrad\u00e1veis, inevit\u00e1veis, e n\u00e3o h\u00e1 uma s\u00f3 qualidade boa que n\u00e3o seja fonte de ventura. A soma das penas \u00e9 assim proporcional \u00e0 soma das imperfei\u00e7\u00f5es, como a dos gozos \u00e9 proporcionada \u00e0 soma das boas qualidades. A alma que tiver, por exemplo, dez imperfei\u00e7\u00f5es, sofrer\u00e1 mais do que aquela que tiver apenas tr\u00eas ou quatro. Quando dessas dez imperfei\u00e7\u00f5es s\u00f3 lhe restarem um quarto ou a metade, ela sofrer\u00e1 menos, e quando nada mais restar, ela nada sofrer\u00e1, sendo perfeitamente feliz. \u00c9 como acontece na Terra: aquele que sofre de muitas doen\u00e7as padece mais do que o que sofre apenas de uma ou n\u00e3o tem nenhuma. Pela mesma raz\u00e3o, a alma que possui dez qualidades boas goza de mais felicidade que a outra que possui menos.<br \/>4\u00b0) Em virtude da lei do progresso, tendo cada alma a possibilidade de conquistar o bem que lhe falta e libertar-se do que possui de mal, segundo os seus esfor\u00e7os e a sua vontade, resulta que o futuro est\u00e1 aberto para qualquer criatura. Deus n\u00e3o repudia nenhum de seus filhos. Ele os recebe em seu seio \u00e0 medida que eles atingem a perfei\u00e7\u00e3o, ficando assim a cada um o m\u00e9rito das suas obras.<br \/>5\u00b0) <span style=\"background-color: #ffff00;\">O sofrimento sendo inerente \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o<\/span>, como a felicidade \u00e9 inerente \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o, a alma leva em si mesma o seu pr\u00f3prio castigo onde quer que se encontre. N\u00e3o h\u00e1 pois necessidade de um lugar circunscrito para ela. O inferno est\u00e1 assim por toda a parte, onde quer que existam almas sofredoras, como o c\u00e9u est\u00e1 por toda a parte, onde quer que as almas sejam felizes.<br \/>6\u00b0) O bem e o mal que praticamos s\u00e3o resultados das boas e das m\u00e1s qualidades que possu\u00edmos. N\u00e3o fazer o bem que se pode fazer \u00e9 uma prova de imperfei\u00e7\u00e3o. Se toda a imperfei\u00e7\u00e3o \u00e9 fonte de sofrimento, o Esp\u00edrito deve sofrer n\u00e3o s\u00f3 por todo o mal que tenha feito, mas tamb\u00e9m por todo o bem que podia fazer e que n\u00e3o fez durante a sua vida terrena.<br \/>7\u00b0) O Esp\u00edrito sofre segundo o que fez sofrer, de maneira que sua aten\u00e7\u00e3o estando incessantemente voltada para as consequ\u00eancias desse mal, ele compreende melhor os inconvenientes do seu procedimento e \u00e9 levado a se corrigir.<br \/>8\u00b0) A justi\u00e7a de Deus sendo infinita, todo o mal e todo o bem s\u00e3o rigorosamente levados em conta. Se n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o m\u00e1, um s\u00f3 mau pensamento que n\u00e3o tenha consequ\u00eancias fatais, tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 uma \u00fanica a\u00e7\u00e3o boa, um s\u00f3 bom movimento da alma, numa palavra, o mais ligeiro m\u00e9rito que fique perdido. E isso, mesmo entre os mais perversos, porque representam um come\u00e7o de progresso.<br \/>9\u00b0) Toda falta que se comete, todo mal praticado \u00e9 uma d\u00edvida contra\u00edda e que tem que ser paga. Se n\u00e3o for nesta exist\u00eancia, ser\u00e1 na pr\u00f3xima ou nas seguintes, porque todas as exist\u00eancias s\u00e3o solid\u00e1rias entre si. Aquilo que se paga na exist\u00eancia presente n\u00e3o ser\u00e1 cobrado na seguinte.<br \/>10\u00b0) <span style=\"background-color: #ffff00;\">O Esp\u00edrito sofre de acordo com as suas imperfei\u00e7\u00f5es<\/span>, seja no mundo espiritual, seja no corporal.Todas as mis\u00e9rias, todas as dificuldades que ele enfrenta na vida corp\u00f3rea s\u00e3o as consequ\u00eancias de suas pr\u00f3prias imperfei\u00e7\u00f5es, as expia\u00e7\u00f5es de faltas cometidas nesta mesma exist\u00eancia ou nas exist\u00eancias anteriores. Pela natureza dos sofrimentos e das dificuldades que ele enfrenta na vida corp\u00f3rea, podemos julgar a natureza das faltas cometidas numa exist\u00eancia anterior e quais as imperfei\u00e7\u00f5es que as causaram.<br \/>11\u00b0) A expia\u00e7\u00e3o varia segundo a natureza e a gravidade da falta. A mesma falta pode assim provocar expia\u00e7\u00f5es diferentes, segundo as circunst\u00e2ncias atenuantes ou agravantes nas quais ela foi cometida.<br \/>12\u00b0) N\u00e3o h\u00e1, no tocante \u00e0 natureza e a dura\u00e7\u00e3o do castigo, nenhuma regra absoluta e uniforme. A \u00fanica lei geral \u00e9 a de que toda falta recebe uma puni\u00e7\u00e3o e toda boa a\u00e7\u00e3o tem a sua recompensa segundo o seu valor.<br \/>13\u00b0) A dura\u00e7\u00e3o do castigo est\u00e1 subordinada ao melhoramento do Esp\u00edrito culpado. Nenhuma condena\u00e7\u00e3o \u00e9 pronunciada contra ele por tempo determinado. O que Deus exige para termo dos sofrimentos \u00e9 uma melhora verdadeira, efetiva, com um retorno sincero ao bem. O Esp\u00edrito \u00e9 assim e sempre o \u00e1rbitro do seu pr\u00f3prio destino. Pode prolongar os seus sofrimentos pelo seu endurecimento no mal e abrand\u00e1-los e at\u00e9 mesmo abrevi\u00e1-los pelos seus esfor\u00e7os em praticar o bem.<br \/>Uma condena\u00e7\u00e3o por tempo determinado, qualquer que fosse esse tempo, teria o duplo inconveniente de fazer o Esp\u00edrito sofrer inutilmente depois de melhorado, ou de cessar antes que ele se libertasse do mal. <span style=\"background-color: #ffff00;\">Deus, que \u00e9 justo, pune o mal enquanto ele existe, e deixa de punir quando o mal deixou de existir.<\/span> <strong>Ou, se quisermos, sendo o mal moral a pr\u00f3pria causa do sofrimento, este dura somente enquanto aquele subsiste e a sua intensidade diminui \u00e0 medida que o mal vai desaparecendo.<\/strong><br \/>14\u00b0) A dura\u00e7\u00e3o do castigo estando subordinada ao melhoramento do Esp\u00edrito, disso resulta que o culpado que n\u00e3o se melhorasse continuaria sofrendo sempre, e que para ele a pena seria eterna.<br \/>15\u00b0) Uma condi\u00e7\u00e3o que \u00e9 inerente \u00e0 inferioridade dos Esp\u00edritos \u00e9 a de n\u00e3o ver o termo de sua situa\u00e7\u00e3o e acreditar que sofrem para sempre. Isso faz que para eles o castigo pare\u00e7a eterno <span style=\"font-size: 9px;\">(30*)<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 12px;\">30* &#8211;\u00a0 Perp\u00e9tuo \u00e9 sin\u00f4nimo de eterno. Dizemos: as neves perp\u00e9tuas, os gelos eternos dos p\u00f3los, e tamb\u00e9m se diz: o secret\u00e1rio perp\u00e9tuo da Academia, o que n\u00e3o quer dizer que se trate de eternidade, mas somente de um tempo indeterminado. Eterno e perp\u00e9tuo se empregam, pois, tamb\u00e9m no sentido de indetermina\u00e7\u00e3o. Nessa acep\u00e7\u00e3o se pode dizer que as penas s\u00e3o eternas quando entendemos que n\u00e3o t\u00eam dura\u00e7\u00e3o limitada: s\u00e3o eternas para o Esp\u00edrito, que n\u00e3o v\u00ea o seu fim. (N. de Kardec)<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>16\u00b0) O arrependimento \u00e9 o primeiro passo para o melhoramento. Mas ele apenas n\u00e3o basta, sendo necess\u00e1rias ainda a expia\u00e7\u00e3o e a repara\u00e7\u00e3o. <strong>Arrependimento, expia\u00e7\u00e3o e repara\u00e7\u00e3o<\/strong> s\u00e3o as tr\u00eas condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para apagar os tra\u00e7os de uma falta e as suas consequ\u00eancias. O arrependimento suaviza as dores da expia\u00e7\u00e3o, porque desperta esperan\u00e7a e prepara a reabilita\u00e7\u00e3o, <strong>mas somente a repara\u00e7\u00e3o pode anular o efeito ao destruir a causa<\/strong>. O perd\u00e3o seria uma gra\u00e7a e n\u00e3o uma anula\u00e7\u00e3o da falha.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>17\u00b0) O arrependimento pode ocorrer em qualquer lugar e tempo. Se ele for tardio, o culpado sofre por mais tempo. A expia\u00e7\u00e3o consiste nos sofrimentos f\u00edsicos e morais que s\u00e3o a consequ\u00eancia da falta cometida, seja desde a vida presente ou seja ap\u00f3s a morte, na vida espiritual, ou ainda numa nova exist\u00eancia corp\u00f3rea, at\u00e9 que os tra\u00e7os da falta tenham desaparecido. A repara\u00e7\u00e3o consiste em praticar o bem para aquele mesmo, a quem se fez o mal. Aquele que n\u00e3o repara os seus erros nesta vida, por fraqueza ou m\u00e1 vontade, tornar\u00e1 a encontrar-se, numa outra exist\u00eancia, com as mesmas pessoas que ofendeu, e em condi\u00e7\u00f5es escolhidas por ele mesmo para poder provar-lhes o seu devotamento, fazendo-lhes tanto bem quanto o mal que havia feito. Nem todas as faltas acarretam um preju\u00edzo direto e efetivo. Nesses casos, a repara\u00e7\u00e3o se realiza fazendo-se o que se deixou de fazer, cumprindo-se os deveres que foram negligenciados ou desprezados, as miss\u00f5es em que se tenha falido, praticando-se o bem reparador do mal que se fez. Isso quer dizer, sendo humilde quando se foi orgulhoso, bondoso quando se foi duro, caridoso quando se foi ego\u00edsta, benevolente quando se foi maldoso, trabalhador quando se foi pregui\u00e7oso, \u00fatil quando se foi in\u00fatil, temperante quando se foi dissoluto, bom exemplo quando se foi mau e assim por diante. \u00c9 dessa maneira que o Esp\u00edrito progride, tornando proveitoso o seu passado. <span style=\"font-size: 12px;\">(31*)<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 12px;\">31* A necessidade da repara\u00e7\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio de rigorosa justi\u00e7a que se pode considerar como a verdadeira lei de reabilita\u00e7\u00e3o moral dos Esp\u00edritos. \u00c9 esta uma doutrina que nenhuma religi\u00e3o proclamou ainda. Entretanto algumas pessoas a repelem, por acharem que seria mais c\u00f3modo poder apagar as suas faltas simplesmente pelo arrependimento, que s\u00f3 depende de algumas palavras, com a ajuda de certas f\u00f3rmulas. Convictas de que assim estar\u00e3o livres, ver\u00e3o mais tarde que isso n\u00e3o foi suficiente. Poder\u00edamos perguntar-lhes se esse princ\u00edpio n\u00e3o est\u00e1 consagrado na lei humana e se a justi\u00e7a de Deus pode ser inferior \u00e0 dos homens. Se elas ficariam satisfeitas quando um indiv\u00edduo que as tivesse arruinado por abuso de confian\u00e7a, se limitasse a dizer-lhes que se lamentariam disso infinitamente. Por que, pois, querem elas recuar ante uma obriga\u00e7\u00e3o que toda criatura honesta deveria cumprir na medida de suas for\u00e7as? Quando essa perspectiva da repara\u00e7\u00e3o for introduzida na cren\u00e7a popular se transformar\u00e1 num freio bem mais poderoso que o do inferno e das penas eternas pois ela se refere \u00e0 vida atual e faz compreender a raz\u00e3o das penas por que o homem est\u00e1 passando. (N. de Kardec)<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>18\u00b0) Os Esp\u00edritos imperfeitos s\u00e3o afastados dos mundos felizes porque perturbariam a sua harmonia. Permanecem nos mundos inferiores onde expiam as suas faltas pelas tribula\u00e7\u00f5es da vida e se libertam das suas imperfei\u00e7\u00f5es, at\u00e9 merecerem encarnar-se em mundos moral e fisicamente mais adiantados. Se podemos conceber um lugar de castigo determinado \u00e9 precisamente nos mundos de expia\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 ao redor desses mundos que pululam os Esp\u00edritos imperfeitos desencarnados, esperando uma nova exist\u00eancia que, permitindo-lhes a repara\u00e7\u00e3o do mal que fizeram, os ajudar\u00e1 a progredir.<br \/>19\u00b0) Como o Esp\u00edrito conserva sempre o seu livre-arb\u00edtrio, melhora \u00e0s vezes de maneira lenta e sua obstina\u00e7\u00e3o no mal \u00e9 bastante tenaz. Pode persistir nessa situa\u00e7\u00e3o durante anos e s\u00e9culos, mas chega sempre o momento em que a sua teimosia em desafiar a justi\u00e7a de Deus se abate diante do sofrimento, e ent\u00e3o, malgrado a sua fanfarronice, ele reconhece o poder superior que o domina. Desde o momento em que manifesta as primeiras luzes do arrependimento, Deus o faz entrever a esperan\u00e7a. Nenhum Esp\u00edrito est\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de nunca se melhorar. Se assim fosse ele estaria fatalmente destinado a uma eterna situa\u00e7\u00e3o de inferioridade e escaparia \u00e0 lei da evolu\u00e7\u00e3o que rege providencialmente todas as criaturas.<br \/>20\u00b0) Sejam quais forem a inferioridade e a perversidade dos Esp\u00edritos, Deus jamais os abandona. Todos t\u00eam o seu anjo da guarda que vela por eles, vigia as expans\u00f5es da sua alma e se esfor\u00e7a para despertar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e de reparar numa nova exist\u00eancia o mal que tenham feito. N\u00e3o obstante, o guia ou protetor age na maioria das vezes de maneira oculta, sem exercer nenhuma press\u00e3o. O Esp\u00edrito deve melhorar-se pela for\u00e7a de sua pr\u00f3pria vontade e n\u00e3o por for\u00e7a de qualquer constrangimento. Deve agir bem ou mal em virtude de seu livre-arb\u00edtrio, sem ser fatalmente empurrado num sentido ou noutro. Se fizer o mal, sofrer\u00e1 as suas consequ\u00eancias enquanto permanecer no mau caminho. Desde que d\u00ea um passo em dire\u00e7\u00e3o ao bem sentir\u00e1 imediatamente os seus resultados.<br \/><strong>Observa\u00e7\u00e3o:<\/strong> <span style=\"background-color: #ffff00;\">Seria err\u00f4neo acreditar que, em virtude da lei do progresso, a certeza de chegar cedo ou tarde \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o e \u00e0 felicidade pode ser um encorajamento a permanecer no mal, esperando arrepender-se mais tarde.<\/span> Primeiro, o Esp\u00edrito inferior n\u00e3o v\u00ea a possibilidade de um fim para a sua situa\u00e7\u00e3o; segundo, sendo ele o art\u00edfice da sua pr\u00f3pria desgra\u00e7a, acaba por compreender que dele depende faz\u00ea-la cessar e que quanto mais persistir no mal mais longa ser\u00e1 a sua infelicidade, pois o seu sofrimento durar\u00e1 sempre se ele pr\u00f3prio n\u00e3o lhe puser um termo. <strong>Esse seria, de sua parte, um c\u00e1lculo errado, com o qual se enganaria a si mesmo.<\/strong> Se, pelo contr\u00e1rio, segundo o dogma das penas irremiss\u00edveis, toda esperan\u00e7a lhe fosse negada, ele n\u00e3o teria nenhum interesse em retornar ao bem, pois isso n\u00e3o lhe daria nenhum proveito. Perante esta lei cai igualmente a obje\u00e7\u00e3o referente \u00e0 presci\u00eancia. Deus, ao criar uma alma sabe realmente se em virtude do seu livre-arb\u00edtrio ela tomar\u00e1 o bom ou o mau caminho; sabe que ela ser\u00e1 punida se praticar o mal; mas sabe tamb\u00e9m que esse castigo tempor\u00e1rio \u00e9 um meio de a levar a compreender o seu erro e de a fazer entrar no bom caminho, ao qual cedo ou tarde chegar\u00e1. Segundo a doutrina das penas eternas, Deus sabe que a alma falir\u00e1, e assim ela j\u00e1 est\u00e1 previamente condenada \u00e0s torturas sem fim.<br \/>21\u00b0) <strong>Cada um s\u00f3 \u00e9 respons\u00e1vel pelas suas pr\u00f3prias faltas.<\/strong> Ningu\u00e9m sofre penalidades pelas faltas alheias, a menos que para isso tenha dado algum motivo, seja provocando-as pelo seu exemplo, seja deixando de impedi-las quando podia faz\u00ea-lo. \u00c9 assim, por exemplo, que o suicida \u00e9 sempre punido, mas aquele que, por sua dureza de cora\u00e7\u00e3o, leva um indiv\u00edduo ao desespero e da\u00ed ao suic\u00eddio, sofre uma pena ainda maior.<br \/>22\u00b0) Embora a diversidade de puni\u00e7\u00f5es seja infinita, existem as que s\u00e3o inerentes \u00e0 inferioridade dos Esp\u00edritos e cujas consequ\u00eancias, salvo algumas nuan\u00e7as, s\u00e3o mais ou menos id\u00eanticas.<br \/>A puni\u00e7\u00e3o mais comum, entre os que s\u00e3o sobretudo apegados \u00e0 vida material e negligenciam o progresso espiritual, consiste na lentid\u00e3o com que se processa a separa\u00e7\u00e3o da alma e do corpo, e portanto nas ang\u00fastias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na dura\u00e7\u00e3o das perturba\u00e7\u00f5es que podem ent\u00e3o durar desde meses at\u00e9 anos. Entre os que, pelo contr\u00e1rio, tendo uma consci\u00eancia pura, identificam-se durante a vida corp\u00f3rea com a vida espiritual e libertam-se das coisas materiais, a separa\u00e7\u00e3o \u00e9 r\u00e1pida, sem dificuldades, e o despertar apraz\u00edvel, sendo a perturba\u00e7\u00e3o quase inexistente.<br \/>23\u00b0) Um fen\u00f4meno muito frequente entre os Esp\u00edritos de um certo grau de inferioridade moral consiste em se acreditarem ainda vivos ap\u00f3s a morte, e essa ilus\u00e3o pode se prolongar durante anos, atrav\u00e9s dos quais eles experimentam todas as necessidades, todos os tormentos e todas as perplexidades da vida<span style=\"font-size: 12px;\"> (32*)<\/span>.<br \/><span style=\"color: #000080; font-size: 12px;\">32* As necessidades, os tormentos e as perplexidades da vida experimentados nas condi\u00e7\u00f5es de uma exist\u00eancia fict\u00edcia, em que o perisp\u00edrito falsamente representa o corpo material, constituem uma situa\u00e7\u00e3o bastante dolorosa para o Espirito. Foi dela que certamente se originou o dogma do Inferno material, com o corpo material mas invulner\u00e1vel, a sofrer sem se destruir. (N. do T.)<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>24\u00b0) Para o criminoso, a vis\u00e3o incessante de suas v\u00edtimas e das circunst\u00e2ncias do crime \u00e9 um supl\u00edcio cruel.<br \/>25\u00b0) Alguns Esp\u00edritos s\u00e3o mergulhados em trevas espessas. Outros s\u00e3o postos num isolamento absoluto, no espa\u00e7o, atormentados pelo fato de n\u00e3o saberem qual a sua condi\u00e7\u00e3o e o seu destino. Os maiores culpados sofrem torturas que s\u00e3o tanto mais pungentes quanto ignoram o seu fim. Muitos ficam privados de verem os seus seres queridos. Todos, em geral, passam por sofrimentos cuja intensidade \u00e9 relativa aos males que praticaram, \u00e0s dores e necessidades que fizeram os outros sofrer, at\u00e9 que o arrependimento e o desejo de repara\u00e7\u00e3o, venham trazer-lhes um abrandamento ao faz\u00ea-los entrever a possibilidade de dar, por si mesmos, um fim a essa situa\u00e7\u00e3o.<br \/>26\u00b0) \u00c9 um supl\u00edcio para o orgulhoso ver acima dele, gloriosos e radiantes de alegria, os que ele havia desprezado na Terra, ao mesmo tempo que ele \u00e9 relegado aos \u00faltimos lugares. Para o hip\u00f3crita, ver-se trespassado pela luz que revela os seus mais secretos pensamentos, que todos podem ler, n\u00e3o havendo para ele nenhum meio de se esconder ou se disfar\u00e7ar. Para o sensual \u00e9 um supl\u00edcio passar por todas as tenta\u00e7\u00f5es, todos os desejos, sem poder satisfaz\u00ea-los. Para o avarento, ver o seu ouro desperdi\u00e7ado e n\u00e3o poder ret\u00ea-lo. Para o ego\u00edsta, ser abandonado por todos e sofrer tudo aquilo que os outros sofreram dele: ter\u00e1 sede e ningu\u00e9m lhe dar\u00e1 de beber; ter\u00e1 fome e ningu\u00e9m lhe dar\u00e1 de comer; nem uma s\u00f3 m\u00e3o amiga vir\u00e1 apertar a sua, nenhuma voz compassiva vir\u00e1 consol\u00e1-lo, pois ele s\u00f3 pensou em si durante a vida e ningu\u00e9m agora pensa nele nem o lamenta ap\u00f3s a sua morte.<br \/>27\u00b0) O meio de evitar ou atenuar as consequ\u00eancias de suas faltas na vida futura \u00e9 desfazer-se o mais poss\u00edvel dos seus defeitos na vida presente, reparar aqui mesmo o mal para n\u00e3o ter de repar\u00e1-lo mais tarde e de maneira mais terr\u00edvel. Quanto mais demorarmos a deixar os nossos defeitos, mais as suas consequ\u00eancias se tornar\u00e3o penosas e mais rigorosas ser\u00e1 a repara\u00e7\u00e3o que tivermos de fazer.<br \/>28\u00b0) A situa\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito, desde a sua entrada na vida espiritual, \u00e9 aquela que ele mesmo se preparou durante a sua vida corporal. Mais tarde, outra encarna\u00e7\u00e3o lhe \u00e9 concedida para expiar e reparar a anterior, passando por novas provas. Mas ele a aproveitar\u00e1 em maior ou menor grau, segundo o seu livre-arb\u00edtrio. Se n\u00e3o a aproveitar, ter\u00e1 um trabalho a recome\u00e7ar, e cada vez em condi\u00e7\u00f5es mais penosas. Dessa maneira, aquele que muito sofre na Terra pode dizer que tem muito a expiar. <strong>Os que gozam de uma felicidade aparente, malgrado os seus v\u00edcios e sua inutilidade<\/strong>, pagar\u00e3o caro numa exist\u00eancia posterior. Foi nesse sentido que Jesus disse: Bem aventurados os aflitos porque ser\u00e3o consolados. (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Cap. V.)<br \/>29\u00b0) <strong>A miseric\u00f3rdia de Deus \u00e9 sem d\u00favida infinita, mas n\u00e3o \u00e9 cega.<\/strong> O<span style=\"background-color: #ffff00;\"> culpado que ela perdoou n\u00e3o est\u00e1 dispensado de satisfazer a justi\u00e7a, passando pelas consequ\u00eancias de suas faltas.<\/span> Por miseric\u00f3rdia infinita \u00e9 necess\u00e1rio entender que Deus n\u00e3o \u00e9 inexor\u00e1vel, deixando sempre aberta ao culpado a porta de retorno ao bem.<br \/>30\u00b0) As penas sendo tempor\u00e1rias e subordinadas ao arrependimento e \u00e0 repara\u00e7\u00e3o, que dependem da livre vontade do homem, acontece o mesmo com os castigos e os rem\u00e9dios que devem ajudar a curar as feridas do mal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"> Os Esp\u00edritos em puni\u00e7\u00e3o n\u00e3o se encontram na situa\u00e7\u00e3o dos antigos condenados \u00e0s galeras, mas como os doentes no hospital. Sofrem a doen\u00e7a que frequentemente decorre de suas pr\u00f3prias faltas e passam por meios dolorosos de cura de que necessitam, mas t\u00eam a esperan\u00e7a de ser curados e se curam tanto mais rapidamente, quanto observarem com exatid\u00e3o as prescri\u00e7\u00f5es do m\u00e9dico que solicitante vela por eles. Se eles prolongam os sofrimentos por sua pr\u00f3pria culpa, o m\u00e9dico nada tem com isso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>31\u00b0) As penas que o Esp\u00edrito sofre na vida espiritual juntam-se \u00e0s da vida corporal, que s\u00e3o a consequ\u00eancia das imperfei\u00e7\u00f5es do homem, de suas paix\u00f5es, do mau emprego de suas faculdades, e a expia\u00e7\u00e3o de suas faltas presentes e passadas. \u00c9 na vida corporal que o Esp\u00edrito repara o mal de suas exist\u00eancias anteriores, que p\u00f5e em pr\u00e1tica as resolu\u00e7\u00f5es tomadas na vida espiritual. \u00c9 assim que se explicam as mis\u00e9rias e as dificuldades que, \u00e0 primeira vista, parecem n\u00e3o ter raz\u00e3o de ser, mas na verdade s\u00e3o justas desde que foram determinadas no passado e servem para o nosso adiantamento, <span style=\"font-size: 12px;\">(33*).<\/span><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000080; font-size: 12px;\">33* Ver o cap\u00edtulo VI, Purgat\u00f3rio, n\u00fameros 3 e seguintes. Ver tamb\u00e9m o cap\u00edtulo XX, Exemplos de expia\u00e7\u00f5es terrenas. \u2014 No O Evangelho Segundo o Espiritismo, cap\u00edtulo V, Bem-aventurados os aflitos. (N. de Kardec).<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">32\u00b0) Deus, pergunta-se, n\u00e3o demonstraria maior amor por suas criaturas se as criasse infal\u00edveis e portanto isentas das vicissitudes decorrentes da imperfei\u00e7\u00e3o? Seria necess\u00e1rio, para isso, que ele criasse seres perfeitos, nada tendo a conquistar, nem em conhecimentos e nem em moralidade. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida que o podia fazer, mas se n\u00e3o o fez \u00e9 porque, na sua sabedoria quis que o progresso fosse uma lei geral. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\">Os homens s\u00e3o imperfeitos e, como tal, sujeitos \u00e0s vicissitudes mais ou menos penosas. Esse \u00e9 um fato que temos de aceitar, desde que existe. Mas inferir disso que Deus n\u00e3o \u00e9 bom nem justo seria uma rebeldia. Haveria injusti\u00e7a se ele tivesse criado seres privilegiados, mais favorecidos que os outros, gozando sem esfor\u00e7o da felicidade que os outros s\u00f3 atingem penosamente ou jamais poderiam atingir. <span style=\"background-color: #ffff00;\">A justi\u00e7a de Deus brilha precisamente na igualdade absoluta que rege a cria\u00e7\u00e3o de todos os Esp\u00edritos.<\/span> T<strong>odos t\u00eam o mesmo ponto de partida; n\u00e3o h\u00e1 nenhum que seja, na sua forma\u00e7\u00e3o, mais bem dotado que os outros; nenhum cuja marcha ascensional seja facilitada por exce\u00e7\u00e3o;<\/strong> os que chegam ao alvo passaram, como os outros, pela fieira das provas e da inferioridade.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>Admitindo-se isso, o que haveria de mais justo do que essa liberdade de a\u00e7\u00e3o dada a cada um? A via da felicidade est\u00e1 aberta a todos, o objetivo de todos \u00e9 o mesmo, as condi\u00e7\u00f5es para atingi-lo s\u00e3o as mesmas para todos e a lei gravada em todas as consci\u00eancias foi ensinada \u00e0 todos. Deus fez da felicidade o pr\u00e9mio do trabalho e n\u00e3o do favoritismo para que cada um tenha o seu m\u00e9rito. Todos s\u00e3o livres de trabalhar ou de nada fazer para o seu adiantamento. Aquele que trabalha bastante e com rapidez \u00e9 recompensado mais cedo, mas aquele que se desvia do caminho ou perde o seu tempo, retarda a sua chegada e s\u00f3 pode lamentar de si mesmo. <strong>O bem e o mal s\u00e3o facultativos e dependem da vontade de cada um. O homem, por ser livre, n\u00e3o \u00e9 fatalmente levado, nem para um, nem para o outro.<\/strong><br \/>33\u00b0) Apesar da diversidade de g\u00eaneros e graus de sofrimento dos Esp\u00edritos imperfeitos, o c\u00f3digo penal da vida futura pode se resumir nestes tr\u00eas princ\u00edpios:<br \/><strong><span style=\"background-color: #ffff00;\">1\u00b0) O sofrimento \u00e9 inerente \u00e0 imperfei\u00e7\u00e3o.<\/span><\/strong><br \/><strong><span style=\"background-color: #ffff00;\">2\u00b0) Toda imperfei\u00e7\u00e3o, e toda a falta que dela decorre, trazem o seu pr\u00f3prio castigo nas suas consequ\u00eancias naturais e inevit\u00e1veis, como a doen\u00e7a decorre dos excessos, o t\u00e9dio da ociosidade, sem que haja necessidade de uma condena\u00e7\u00e3o especial para cada falta e cada indiv\u00edduo.<\/span><\/strong><br \/><strong><span style=\"background-color: #ffff00;\">3\u00b0) Todo homem podendo corrigir as suas imperfei\u00e7\u00f5es pela sua pr\u00f3pria vontade, pode poupar-se os males que delas decorrem e assegurar a sua felicidade futura.<\/span><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span style=\"color: #000000;\"><br \/>Essa \u00e9 a lei da justi\u00e7a divina: a cada um segundo as suas obras, tanto no c\u00e9u como na Terra <span style=\"font-size: 12px;\">(34*)<\/span><br \/><span style=\"font-size: 12px; color: #000080;\">34* Algumas pessoas argumentam que as imperfei\u00e7\u00f5es v\u00eam de Deus, que nos criou imperfeitos. O principio da evolu\u00e7\u00e3o nos mostra que h\u00e1 v\u00e1rios graus de perfei\u00e7\u00e3o. Deus nos criou em pot\u00eancia, como sementes que t\u00eam em si mesmas todas as potencialidades futuras. Assim, criou-nos perfeitos. Cabe-nos, por\u00e9m, atualizar, ou seja, desenvolver as nossas potencialidades a fim de atingirmos a perfei\u00e7\u00e3o em ato, como seres espirituais. Esse desenvolvimento depende de n\u00f3s, do nosso livre-arb\u00edtrio, sem o qual n\u00e3o ter\u00edamos responsabilidade. E sem responsabilidade n\u00e3o seriamos perfeitos como seres espirituais. Veja-se o s\u00edmbolo b\u00edblico: Ad\u00e3o e Eva eram perfeitos na sua ingenuidade, mas ao desenvolver a raz\u00e3o passaram a agir por si mesmos e erraram. Os erros, por\u00e9m, ser\u00e3o corrigidos na busca da perfei\u00e7\u00e3o. <\/span><br \/><\/span><\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<p><span style=\"font-size: 12px; color: #000080;\">\u00a0<\/span><\/p>\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Painel O C\u00c9U E O INFERNO CAP\u00cdTULO VI DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS Origem da Doutrina das Penas Eternas 1 \u2014 A cren\u00e7a na eternidade das penas perde terreno cada dia, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_bbp_topic_count":0,"_bbp_reply_count":0,"_bbp_total_topic_count":0,"_bbp_total_reply_count":0,"_bbp_voice_count":0,"_bbp_anonymous_reply_count":0,"_bbp_topic_count_hidden":0,"_bbp_reply_count_hidden":0,"_bbp_forum_subforum_count":0,"footnotes":""},"categories":[7],"tags":[],"blocksy_meta":{"styles_descriptor":{"styles":{"desktop":"","tablet":"","mobile":""},"google_fonts":[],"version":6}},"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v23.5 - https:\/\/yoast.com\/wordpress\/plugins\/seo\/ -->\n<title>O C\u00c9U E O INFERNO - A DOUTRINA DAS PENAS ETERNAS &#8211; 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