A UNIVERSALIDADE DOS ENSINOS DE JESUS
Preparara Terra para a evolução espiritual; O evangelho renovou o mundo; Gandhi; Paulo, o divulgador; O espiritismo completa a revelação cristã; O Espírito da Verdade.
Jesus vai a um lugar deserto. Sendo já dia saiu e foi a um lugar deserto. As multidões procuravam-no e encontrando-o queriam detê-lo para que não as deixasse. Mas ele lhes disse: é necessário que eu anuncie o evangelho do reino de Deus também às outras cidades, pois para isso é que fui enviado. (I., 4:4.-43)
Este trecho do evangelho de Lucas nos revela mais uma vez, porque vários outros trechos também revelam, a universalidade da mensagem cristã. Era necessário que ela se espalhasse pelo mundo, que fosse levada a todos os cantos, porque somente ela – a mensagem do evangelho de Jesus – poderia preparar a Terra para sua evolução espiritual. A humanidade terrena – ainda tão apegada às coisas materiais, ainda tão primitiva ligada à crosta do planeta – essa humanidade necessitava do grande impulso evolutivo que só o evangelho de Jesus na verdade lhe deu. E nós sabemos que historicamente isso se confirmou desde que o evangelho foi pregado, e conseguiu realmente atingir numerosas cidades, países, espalhando-se pelo mundo, desde que isso aconteceu as modificações que se processaram na conduta humana, na vida humana, na mente humana, na alma humana, foram as mais profundas. O Evangelho renovou o mundo: esta é a verdade. Enquanto nós encontramos em todas as religiões do passado, e mesmo nas religiões do presente, uma tentativa de transformação do homem que se reduz apenas a alguns elementos e se fixa em determinados pontos da Terra, o Evangelho de Jesus, na sua irradiação, conseguiu modificar a mentalidade planetária. Muita gente diz assim: mas o cristianismo hoje se reduz a apenas algumas áreas da Terra. O cristianismo não cobre todo o mundo, existem as outras religiões, grandes religiões em países e em áreas bastante vastas que não são cristãs. Como então aceitar que o cristianismo modificou o mundo todo?
É fácil de verificar isso. Basta olharmos para essas regiões, principalmente do oriente onde se estendem as grandes áreas que não são basicamente cristãs, e vermos a influência que o cristianismo ali exerceu. O cristianismo criou um novo modo de vida, uma nova concepção da vida, de Deus, do mundo, do homem. Ora, este novo modo de vida, esta civilização que nasceu do cristianismo e que é chamada hoje de civilização cristã está hoje sendo copiada por toda parte. Em toda parte a sua influência é indiscutível; a transformação do mundo se realizou, portanto, na linha do pensamento cristão. Quando nós vemos na índia, por exemplo, o Mahatma Gandhi que não era um cristão, entretanto declarar que toda sua doutrina viera do Evangelho de Jesus e particularmente do sermão da montanha; e quando vemos os reflexos que o pensamento de Gandhi teve em todo oriente, nós podemos ter um exemplo bem orientador e esclarecedor do poder do cristianismo na transformação da Terra, na modificação do homem terreno. A palavra de Jesus, portanto, não podia ficar circunscrita apenas a uma cidade; ela tinha que ser levada, como realmente foi, para outras cidades, para outros povos, para o mundo inteiro. É justo que lembremos neste momento, ao comentar esse trecho, a figura inominável do apóstolo Paulo. Foi ele, como sabemos o grande divulgador do cristianismo além das fronteiras da Palestina.
Foi ele quem rasgou as fronteiras do mundo para levar a palavra cristã a todas as terras, a todos os gentios, como eram chamados os povos não judeus daquela época. Ora, este exemplo de Paulo é hoje seguido por todos aqueles que procuram através do espiritismo completar a revelação cristã. E quando falamos “completar a revelação cristã” não nos atemos ao pensamento nosso pessoal, nem a um pensamento espírita, mas sim ao pensamento do próprio Cristo, quando disse que muita coisa ainda tinha para ensinar aos homens; que eles não poderiam aprender porque não estavam em condições de compreendê-las, mas que ele enviaria à Terra, pedindo a Deus que o fizesse, que enviasse o Espírito da Verdade para esclarecer esses pontos e orientar os homens no sentido mais profundo da verdadeira substância do seu evangelho.
O EVANGELHO DE JESUS EM ESPÍRITO E VERDADE POR J. HERCULANO PIRES
A DIDAXIS DO NATAL
Os grandes mestres já trazem a vocação de ensinar ao nascer. E por isso costumam ensinar desde cedo. Jesus, ainda menino, quando os outros estão aprendendo, ensinava aos doutores do Templo em Jerusalém. Fatos semelhantes ocorreram com muitas criaturas geniais em todo o mundo . Mas não há registro positivo de alguém que fizesse de toda a sua vida, desde o ato de nascer até a morte, uma didaxis contínua, uma lição incessante. Este é um dos fatos que destacam o Mestre Supremo entre todos os mestres, que caracterizam o Gênio dos gênios.
Siddharta Gautama Buda era príncipe e nasceu num palácio. Viveu nos esplendores da corte até descobrir as dores do mundo. Mas Jesus escolheu para berço a manjedoura . Nasceu na pobreza e na humildade. E assim viveu, para depois morrer na ignomínia. Aquele que devia salvar o mundo e redimir os homens fez-se o menor e o mais desprezado de todos. Seu nascimento foi a primeira lição que ele dava aos orgulhosos e poderosos da Terra. Depois ensinaria que não se necessita de títulos, de posições, de riqueza e de poder temporal para remover o mundo da órbita da ignorância. E por fim nos deu duas espantosas lições finais: a morte na cruz e o túmulo vazio, mostrando-nos que a injustiça eleva o justo e que a morte desaparece à luz da ressurreição.
Mas o didaxis do Natal tem a sua simbologia. Foi a sua primeira parábola, não falada, mas vivida. O fato de Maria dar à luz num estábulo não era estranho na Judéia do tempo. Os estábulos eram dependências da casa que podiam servir também às criaturas humanas, particularmente no inverno, quando o calor dos animais domésticos ajudava a aquecer o ambiente. Os estábulos de inverno eram geralmente montados numa gruta, para que os animais ficassem mais defendidos nas noites gélidas. Os rigores do inverno obrigavam os homens a se fraternizarem com seus irmãos e servidores mais humildes, os animais domésticos. Nascendo assim num estábulo, Jesus não incidia em nenhuma excentricidade, mas dentro dos próprios costumes do povo, como faria em toda a sua vida, transmitiria aos homens a mais bela parábola. A criança divina entre as palhas da manjedoura era como a mônada celeste lançada no seio da matéria. Os animais que a cercavam ajudam Maria a dar-lhe o calor do sangue e da carne. A centelha celeste era assim envolvida na ganga da encarnação terrestre, com os instintos animais da carne a prendê-la ao chão do mundo, mas com a ternura espiritual de Maria a fortalecê-la para a vitória do espírito. A visita dos Magos, relatada por Mateus, mostra-nos a sabedoria terrena curvando-se reverente ante o saber celeste e prestando-lhe as suas homenagens. A fúria de Herodes o Grande e de Jerusalém com ele revela-nos a hostilidade ciumenta dos grandes da Terra contra os verdadeiros emissários do Alto. A convocação dos principais sacerdotes e dos escribas do povo pelo rei alarmado é o incitamento dos poderes humanos contra os poderes divinos.
Temos assim, na didaxis do Natal, a primeira prova da legitimidade da missão de Jesus. Quando o Buda nasceu os jardins do palácio rebentaram em flores e perfumes. Mas quando Jesus nasceu os anjos cantaram na fímbria do horizonte e os pastores se ajoelharam nos campos nevados, trêmulos de emoção, sem sentirem o frio do inverno. Não queremos desmerecer a grandeza espiritual do Buda e de outros grandes missionários espirituais, mas a didaxis do natal nos lembra que o Messias judeu era realmente o Mestre dos mestres, o professor por excelência. O Espiritismo encara os Evangelhos, na sua realidade histórica, como textos inspirados mas de redação humana, sujeitos às influências culturais da época e do meio em que foram redigidos e também às condições pessoais de cada evangelista. Mas reconhece a legitimidade dos seus ensinos espirituais e morais e tem o mais profundo respeito pelo sentido alegórico de episódios como o do Natal. Por isso o Natal espírita não se reveste de formalidades exteriores, mas não deixa de considerar o sentido espiritual do grande evento cristão.
J. Herculano Pires – O Infinito e o Finito
O HOMEM NOVO
Para construir um mundo novo precisamos de um homem novo. O mundo está cheio de erros e injustiças porque é a soma dos erros e injustiças dos homens. Todos sabemos que temos de morrer, mas só nos preocupamos com o viver passageiro da Terra. Por isso, a humanidade desencarnada que nos rodeia é ainda mais sofredora e miserável que a encarnada a que pertencemos. “As filas de doentes que eu atendia na vida terrena” — diz a mensagem de um espírito — continuam neste lado. Muita gente estranha que nas sessões espíritas se manifestem tantos espíritos sofredores. Seria de estranhar se apenas se manifestassem espíritos felizes. Basta olharmos ao nosso redor — e também para dentro de nós mesmos — para vermos de que barro é feita a criatura humana em nosso planeta. Fala-se muito em fraude e mistificação no Espiritismo, como se ambas não estivessem em toda parte, onde quer que exista uma criatura humana. Espíritos e médiuns que fraudam são nossos companheiros de plano evolutivo, nossos colegas de fraudes cotidianas. O Espiritismo está na Terra, em cumprimento à promessa evangélica de Consolador, para consolar os aflitos e oferecer a verdade aos que anseiam por ela. Sua missão é transformar o homem para que o mundo se transforme. Há muita gente querendo fazer o contrário: mudar o mundo para mudar o homem. O Espiritismo ensina que a transformação é conjunta e recíproca, mas tem de começar pelo homem. Enquanto o homem não melhora, o mundo não se transforma. Inútil, pois, apelar para modificações superficiais. Temos de insistir na mudança essencial de nós mesmos. O homem novo que nos dará um mundo novo é tão velho quanto os ensinos espirituais do mais remoto passado, renovados pelo Evangelho e revividos pelo Espiritismo. Sem amor não há justiça e sem verdade não escaparemos à fraude, à mistificação, à mentira, à traição. O trabalho espírita é a continuação natural e histórica do trabalho cristão que modificou o mundo antigo. Nossa luta é o bom combate do apóstolo Paulo: despertar as consciências e libertar o homem do egoísmo, da vaidade e da ganância. “Os anos não nos dão experiência nem sabedoria — dizia o vagabundo de Knut Hamsun — mas nos deixam os cabelos horrorosamente grisalhos.” É o que vemos no final desse poema bucólico da Noruega que é “Um Vagabundo Toca em Surdina”. Knut Hamsun era um individualista e sobretudo um lírico do individualismo. Mas o homem que se abre para o altruísmo sabe que as verdades do indivíduo são geralmente moedas falsas, de circulação restrita. A verdade maior — ou verdadeira — é a que nasce do contexto social, da usina das relações, onde o indivíduo se forma pelo contato com os outros.
Os anos não trazem apenas os cabelos brancos — trazem também a experiência, mestra da vida, e com ela a sabedoria. E no dia a dia da existência que o homem vai modelando aos poucos a sua própria argila, o barro plástico de que Deus formou o seu corpo na Terra. Cada idade, afirmou Léon Denis, tem o seu próprio encanto, a sua própria beleza. É belo ser jovem e temerário, mas talvez seja mais belo ser velho e prudente, iluminado por uma visão da vida que não se fecha no círculo estreito das paixões ilusórias. O homem amadurece com o passar dos anos. A vida tem as suas estações, já diziam os romanos. À semelhança do ano, ela se divide nas quatro estações da existência que são: a primavera da infância e da adolescência, o verão da mocidade e outono da madureza e o inverno da velhice. Mas também à semelhança dos anos, as vidas se encadeiam no processo da existência, de maneira que as estações se renovam em cada encarnação. Viver, para o individualista, é atravessar os anos de uma existência. Mas viver, para o altruísta, é atravessar as existências palingenésicas, as vidas sucessivas, em direção à sabedoria. O branquear dos cabelos não é mais do que o início das nevadas do inverno. Mas após cada inverno voltará de novo a primavera.
A importância dos anos é, portanto, a mesma das léguas numa caminhada em direção ao futuro. Cada novo ano que surge é para nós, os caminheiros da evolução, uma nova oportunidade de progresso que se abre no horizonte. Entremos no ano novo com a decisão de aproveitá-lo em todos os seus recursos. Não desprezemos a riqueza dos seus minutos, das suas horas, dos seus dias, dos seus meses. Cada um desses fragmentos do ano constitui uma parte da herança de Deus que nos caberá no futuro. O Homem Novo de J. Herculano Pires * 13 /58