OS DEMÔNIOS – 1


OS DEMÔNIOS – 1 de 2 – Cap 9 ou A Justiça Divina Segundo o Espiritismo.

 

Origem da crença nos Demônios
1 — Os demônios desempenharam em todas as épocas um papel nas diversas teogonias. Embora consideravelmente decaídos na opinião geral, a importância que ainda lhes atribuem em nossos dias dá a esta questão uma certa gravidade, porque ela se refere ao próprio fundamento das crenças religiosas. É portanto conveniente que a examinemos em todos os seus aspectos.
A crença na existência de um poder superior é instintiva e podemos encontrá-la entre os homens sob as mais diferentes formas, em todas as épocas. Mas se, no grau de adiantamento intelectual em que hoje se encontram, ainda discutem a natureza e os atributos dessa potência, quanto mais imperfeitas deviam ser suas noções a respeito nas fases iniciais da humanidade!
2 — A representação que hoje fazemos dos povos primitivos
deslumbrados com as belezas da Natureza, nas quais admiram a bondade do Criador, é sem dúvida muito poética, mas desprovida de realidade.
Quanto mais próximo se encontra o homem do estado natural, mais é dominado pelo instinto, como ainda podemos ver entre os povos selvagens e bárbaros dos nossos dias. O que mais o preocupa, ou melhor, o que exclusivamente o preocupa é a satisfação das suas necessidades vitais, pois na verdade não possui outras. O senso moral, que lhe torna possível gozar os prazeres dessa ordem, só se desenvolve aos poucos e demoradamente. A alma tem a sua infância, sua adolescência e sua virilidade, como acontece na vida corpórea. Mas, para atingir a virilidade, que a torna capaz de compreender as coisas abstraias, quanto deve ainda percorrer no caminho da evolução humana! Quantas existências terá ainda de cumprir!
Sem remontarmos aos tempos primitivos, vejamos ao nosso redor as populações camponesas e perguntemos que sentimentos de admiração despertam nelas o nascer do sol com seu esplendor, o céu estrelado, o gorjeio dos pássaros, o marulhar das ondas, os prados verdejantes e floridos. Para elas, o sol se levanta porque isso é habitual e é necessário que dê o calor para amadurecer as colheitas sem as queimar. É tudo quanto lhes interessa. Se olham o céu é para saber se fará bom ou mau tempo no dia seguinte. Que os pássaros cantem ou não, isso pouco lhes interessa, desde que não vão comer os grãos das semeaduras. Às melodias do rouxinol preferem o cacarejar das galinhas e os grunhidos dos porcos. O que interessa nas ondas claras ou borbulhantes dos riachos, é que não sequem e não produzam inundações. Quanto aos prados, que lhes dêem boa pastagem, com ou sem flores. É tudo quanto desejam, diremos mais, tudo o que compreendem da Natureza, e no entanto estão já bem distantes dos homens primitivos!
3 — Se nos reportamos aos primitivos, vemo-los ainda mais inteiramente preocupados com a satisfação de seus interesses materiais. Tudo o que serve para os ajudar e tudo o que possa prejudicá-los resumem para eles o bem e o mal neste mundo. Crêem num poder extra-humano, mas como o que acarreta prejuízo material é o que mais lhes toca, atribuem esses prejuízos ao poder de que fazem, aliás, uma ideia muito vaga. Nada podendo ainda conceber fora do mundo visível e tangível, imaginam que esse poder se constitui dos seres e das coisas que lhes são prejudiciais.
Os animais daninhos são, assim, para eles, os agentes naturais e diretos desse poder. Pela mesma razão, imaginam a personificação do bem nas coisas úteis. Vem daí o culto de certos animais, de certas plantas e mesmo de objetos inanimados. Mas o homem é geralmente mais sensível ao mal do que ao bem, de maneira que o bem lhe parece natural enquanto o mal lhe parece extraordinário. É por isso que, em todos os cultos primitivos, as cerimônias em honra ao poder malfazejo são as mais numerosas: o medo é mais dominante que a gratidão.
Por muito tempo o homem só compreende o bem e o mal do ponto de vista físico. O sentimento do bem moral e do mal moral assinala um progresso da alma humana. Somente então o homem entrevê a espiritualidade e compreende que o poder sobre-humano está fora do mundo visível e não nas coisas materiais. Essa conquista pertence a algumas inteligências privilegiadas, mas que assim mesmo não conseguem ir além de certos limites.
4 — Vendo-se uma luta incessante entre o bem e o mal, este requentemente vencendo aquele, e não se podendo racionalmente admitir que o mal seja um poder benfazejo, conclui-se pela existência de dois poderes rivais que governam o mundo. Foi assim que nasceu a doutrina dos dois princípios: o do bem e o do mal, doutrina lógica na ocasião, porque o homem era ainda incapaz de conceber outra e de compreender a natureza do Ser supremo. Como poderia compreender que o mal é uma ocorrência passageira da qual pode sair o bem e que os males que o afligiam deviam levá-lo à felicidade, ajudando o seu adiantamento?
Os limites do seu horizonte moral nada lhe permitiam ver além da vida presente, nem quanto ao futuro, nem quanto ao passado. Ele não podia compreender que havia progredido, nem que teria ainda de progredir individualmente, e menos ainda que as vicissitudes da vida resultam da imperfeição do seu próprio ser espiritual, que preexiste e sobrevive ao corpo, depurando-se numa série de existências até chegar à perfeição. Para compreender que o bem pode sair do mal não lhe bastava ver apenas uma existência, era necessário abranger o conjunto, pois só então se tornam claras as verdadeiras causas e os seus efeitos.
5 — O duplo princípio do bem e do mal foi, durante longos séculos, sob diferentes nomes, a base de todas as crenças religiosas. Foi personificado com os nomes de Ormuz e Arimã entre os persas e de Jeová e Satã entre os hebreus. Mas, como todo soberano deve ter os seus ministros, todas as religiões admitiram a existência de poderes secundários que são os génios bons ou maus. Os pagãos personificaram esses poderes numa multidão de individualidades, tendo cada uma atribuições especiais no tocante ao bem e ao mal, as virtudes e aos vícios, dando-lhes a denominação geral de deuses. Os Cristãos e os Muçulmanos herdaram dos Hebreus os anjos e os demônios.
6 — A doutrina dos demônios tem portanto a sua origem na antiga crença no princípio do bem e do mal. Vamos examiná-la aqui somente do ponto de vista cristão, procurando ver se ela está em relação com o conhecimento mais exato que hoje possuímos dos atributos da Divindade.
Esses atributos são o ponto de partida, a base de todas as doutrinas religiosas. Os dogmas, o culto, as cerimónias, as práticas, a moral, tudo nelas se relaciona com a ideia mais ou menos justa, mais ou menos elevada que fazem de Deus, desde o fetichismo até o Cristianismo. Se a natureza de Deus é ainda um mistério para a nossa inteligência, entretanto já aí compreendemos melhor do que nunca, graças aos ensinamentos do Cristo. O Cristianismo, concordando nisso com os princípios racionais, nos ensina que: Deus é único, eterno, imutável, imaterial, todo-poderoso, soberanamente justo e bom, e todas as suas perfeiçòes são infinitas. Como dissemos atrás (Cap. VI. Penas Eternas): “Se tirarmos a enorme parcela de um só dos atributos de Deus, não teremos mais Deus, pois poderia existir um ser mais perfeito.” Esses atributos, compreendidos na sua mais absoluta plenitude, constituem o critérium de todas as religiões, a medida de verdade de cada um dos princípios que elas ensinam. Para que um desses princípios seja verdadeiro é preciso que não atente contra nenhuma das perfeições de Deus. Vejamos se isso acontece no tocante à doutrina vulgar dos demônios.
Da encarnação e de seus méritos. Porque não há nenhuma proporção entre as obras dos Espíritos mais eminentes e essa recompensa que é o próprio Deus em si mesmo. Nenhuma criatura teria podido chegar até esse ponto sem essa intervenção maravilhosa e sublime de caridade. Ora, para cobrir a distância infinita que separa a essência divina das obras de suas próprias mãos, era necessário que ele reunisse na sua pessoa os dois extremos e associasse a sua divindade à natureza do anjo ou à do homem: ele preferiu a natureza humana. Esse plano, concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito tempo antes da sua realização. O Homem-Deus lhes foi mostrado no futuro como Aquele que devia confirmá-los na graça e introduzi-los na glória, com a condição de que o adorassem na Terra durante a sua missão, e no Céu pelos séculos dos séculos. Revelação inesperada, visão arrebatadora para os corações generosos e reconhecidos, mas mistério profundo e humilhante para os Espíritos soberbos!
Este destino sobrenatural, o peso imenso dessa glória que lhes era proposta não seria unicamente a recompensa de seus méritos pessoais! Jamais se poderiam atribuir, por si mesmos, os títulos da sua posse! Um mediador entre eles e Deus, que ofensa feita à sua dignidade! A preferência gratuita pela natureza humana, que injustiça! Que atentado aos seus direitos! Essa humanidade que lhes era tão inferior, teriam de vê-la um dia endeusada pela sua união com o Verbo e assentada à direita de Deus, sobre um trono resplandecente? Concordarão eles a prestar-lhe eternamente as suas homenagens e a sua adoração? Lúcifer e a terceira parte dos anjos sucumbiram a esses pensamentos de inveja e de orgulho. São Miguel, e com ele a maioria, exclamaram: quem é semelhante a Deus? Ele é o senhor de seus dons e o soberano Senhor de todas as coisas. Glória a Deus e ao Cordeiro que será imolado para a salvação do mundo! Mas o chefe dos rebeldes, esquecendo que devia ao seu criador a sua própria nobreza e as suas prerrogativas, preferiu escutar a sua própria temeridade e respondeu: eu mesmo subirei ao céu, estabelecerei a minha morada acima dos astros, me assentarei sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Arquilão, dominarei as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo. — Os que partilhavam os seus sentimentos acolheram essas palavras com um murmurar de aprovação, e eles estavam em todas as ordens da hierarquia, mas a sua multidão não os livrou do castigo.

9 — Essa doutrina provoca numerosas objeções:
1a) Se Satã e os demônios eram anjos, é que eram perfeitos; como, sendo perfeitos, puderam falir, desconhecendo dessa maneira a autoridade de Deus em cuja presença se encontravam? Poder-se-ia ainda conceber que, se tivessem chegado à esta eminência de maneira gradual, após haver passado pelos planos da imperfeição, pudessem ter sofrido uma queda dolorosa. Mas o que torna o problema mais incompreensível é que são apresentados como tendo sido criados perfeitos (1).

(1) Essa doutrina monstruosa foi dada por Moisés quando disse (Génese, Cap, VI, v. 6,7): “Ele se arrependeu de haver criado o homem na Terra. E, tocado de dor até o mais fundo do coração, disse: exterminarei da Terra o homem que criei, exterminarei tudo, desde o homem até os animais, desde os que rastejam no solo até os pássaros do céu, porque eu me arrependo de os haver feito.” Um Deus que se arrepende daquilo que fez não é perfeito nem infalível: portanto, não é Deus. Essas são, não obstante, as palavras que a Igreja proclama como verdades sagradas. Por outro lado, não se percebe, de maneira alguma, o que havia de comum entre os animais e a perversidade dos homens, para merecerem aqueles a sua exterminação. (N. de Kardec).

A consequência dessa teoria é a seguinte: Deus quiz fazê-los seres perfeitos, desde que os cumulou de todos os dons, mas se enganou. Assim, segundo a Igreja, Deus não é infalível (2).

(2) A revolução teológica atualmente em curso dá pouca importância ao problema dos anjos, preocupada quase exclusivamente com o homem. No Catecismo Holandês, que apresenta a fé para adultos, a distinção entre os anjos e os homens permanece a mesma do tempo de Kardec. Definindo-os, diz o Catecismo: “São mensageiros ou virtudes que provêm de Deus, espíritos servidores (Hebreus 1,14) frequentemente apresentados na Bíblia em forma humana. Dão forma à bondade de Deus e constituem as grandes virtudes boas que colaboram conosco nesta criação. Seria a existência deles hipótese pertencente à concepção do mundo que reina na Sagrada Escritura? Ou faz esta existência parte integrante da revelação de Deus?” — Como se vê, os anjos são um mistério. (N. do T.)

2a) Desde que nem a Igreja nem os anais da História Sagrada explicam a causa da revolta dos anjos contra Deus, que somente parece certo que foi a recusa de reconhecer a missão futura do Cristo, que valor pode ter o quadro tão preciso e detalhado da cena que então se passou? Em que fonte encontrou ela as expressões tão precisas que reproduziu, como tendo sido pronunciadas na ocasião e até mesmo os simples murmúrios? De duas, uma: ou a cena é verdadeira ou não é. Se é verdadeira, não há qualquer incerteza. Então, porque a Igreja não decidiu a questão? Se a Igreja e a História se calam, a causa apenas parece certa, tudo não passa de suposição e a descrição da cena é simples obra de imaginação (3,4).

(3) Encontra-se em Isaias, cap. XVI, v. 11 e seguintes: “Teu orgulho foi precipitado nos infernos, teu corpo morto tombou na Terra, tua cama será a podridão e tua vestimenta será de vermes. Como tombaste do céu, Lúcifer, tu que parecias tão brilhante como o sol ao meio-dia?
Como foste lançado sobre a Terra, tu que golpeavas e ferias as nações, que dizias no teu coração: eu subirei ao céu e estabelecerei meu trono sobre os astros de Deus, e me assentarei sobre a montanha da Aliança, nos flancos do Aquilão, me colocarei sobre as nuvens mais elevadas e serei semelhante ao Altíssimo? — E no entanto foste precipitado desta glória para o inferno, até os mais fundos dos abismos. — Os que puderem ver-te, aproximando-se de ti, depois de te encararem, dirão: é este o homem que atemorizou a Terra, que encheu de terror os reinos e transformou o mundo num deserto, destruiu as cidades e prendeu em cadeias os que fez prisioneiros?” Essas palavras do profeta não se referem à revolta dos anjos, mas aludiam ao orgulho e à queda do rei de Babilônia que mantinha os judeus no cativeiro, como o provam os últimos versículos. O Rei de Babilônia é designado, por alegoria, sob o nome de Lúcifer, mas não se faz nenhuma referência à cena acima descrita. Essas palavras são do Rei, que as dizia no seu coração e se colocava, pelo seu orgulho, acima de Deus, cujo povo retinha cativo. A predição da libertação dos judeus, da ruína de Babilônia e da derrota dos assírios é, aliás, o objeto exclusivo desse capítulo. (N. de Kardec)

(4) Tratando de Satanás, diz o Catecismo Holandês simplesmente que ele pode ser considerado da mesma maneira que os anjos” …mas em direção oposta: ele é a força reacionária. Não em pé de igualdade, não tão original nem tão poderoso quanto Deus, como bem nos revela expressamente a Escritura. É ele a malícia tremenda que vemos agir eficazmente na Humanidade. Ultrapassa de tão longe a malícia individual que nos perguntamos: qual é a força que está agindo aqui? Uma força meramente humana?” — Como se vê, a posição teológica dos nossos dias continua ambígua em referência ao problema dos anjos e demônios. A Igreja ainda não conseguiu escapar da dualidade mazdeista, considerando Deus como sendo ao mesmo tempo o Poder Supremo e a sua própria oposição. A crítica de Kardec, portanto, continua válida. — (O Novo Catecismo, Editora Herder, São Paulo, 1969, com parecer para o Nihil Obstai e Imprimatur, do Cardeal Arcebispo, por Mons. Dr. Roberto Mascarenhas Roxo. O parecer lembraque o Concilio Vaticano reafirmou a tese do IV Concílio de Latrão e esclarece: “A fé não define a natureza “filosófica” desses seres. Afirma-os “espíritos”, i. e., de natureza diversa, do homem enquanto simultaneamente espiritual e material”), (N. do T.)

3a) As palavras atribuídas a Lúcifer revelam uma ignorância que nos assustamos de ver num arcanjo que por sua própria natureza e pelo grau que havia alcançado, não devia participar, no tocante à organização do Universo, dos erros e dos preconceitos que os homens professaram até o momento em que a Ciência veio esclarecê-los. Como poderia ele dizer:
“Estabelecerei a minha morada acima dos astros, dominarei as nuvens mais elevadas”? É sempre a antiga crença que tem a Terra como centro do Universo, o céu de nuvens que se estende até as estrelas, a região limita da das estrelas formando a cúpula que a Astronomia nos mostra aberta ao espaço infinito, onde as estrelas se espalham. Como sabemos hoje as nuvens não se encontram além de duas léguas acima da Terra, para dizer que dominaria as nuvens mais elevadas, referindo-se às montanhas, era necessário que as cenas se passassem na face da Terra e que nesta, portanto, estivesse a morada dos anjos. Se essa morada estiver nas regiões superiores, estaria claro que devia situar-se muito além das nuvens. Atribuir aos anjos uma linguagem tomada de empréstimo à ignorância dos homens seria declarar que estes, hoje, sabem mais do que os anjos. A Igreja sempre cometeu o erro de não levar em consideração os progressos da ciência.

10 — A resposta à primeira objeção se encontra na passagem seguinte:
A Escritura e a Tradição designam o Céu como o lugar em que os anjos foram colocados no momento da sua criação. Mas esse não é o céu dos céus, o céu da visão beatífica, onde Deus se mostra aos seus eleitos face a face e onde esses eleitos o contemplam sem dificuldades e sem esforços, porque lá não existem mais perigos nem possibilidades de pecar; a tentação e a fraqueza são ali desconhecidas; a justiça, a alegria e a paz reinam com segurança absoluta; a santidade e a glória são imperecíveis. Era portanto outra região celeste, uma esfera luminosa e afortunada em que essas nobres criaturas, largamente favorecidas pelas comunicações divinas, deviam recebê-las e aceitá-las pela humildade da fé, antes de serem admitidas à condição de verem claramente a realidade na própria essência de Deus.
Disto resulta que os anjos falidos pertencem a uma categoria menos elevada, menos perfeita, de maneira que ainda não
haviam atingido a região suprema em que a falta é impossível. Seja, mas então há uma contradição manifesta porque está dito no texto que: “Deus os havia criado em tudo semelhantes aos Espíritos sublimes; que, distribuídos em todas as ordens e misturados a todos os graus, eles tinham o mesmo objetivo e a mesma destinação; que o seu chefe era o mais belo dos arcanjos”. Se eles foram feitos em tudo semelhantes aos outros, não podiam ter uma natureza inferior, e se estavam misturados a todos os graus, não podiam estar num lugar especial. A objeção, portanto, subsiste em toda a sua inteireza.
11 — Há ainda outra que é, inegavelmente, a mais grave e a mais séria. Está escrito: “Esse plano (a mediação de Cristo) concebido desde toda a eternidade, foi revelado aos anjos muito tempo antes da sua realização.” Deus sabia, portanto, desde toda a eternidade, que os anjos, tanto quanto os homens, tinham necessidade dessa mediação. Sabia, ou não sabia que certos anjos falhariam, que a sua queda acarretaria para eles a condenação eterna e sem esperança de retorno; que eles seriam destinados a tentar os homens e que estes, os que se deixassem seduzir, teriam a mesma sorte.
Se Deus sabia tudo isso, então criou os anjos, em conhecimento de causa, para a perda irrevogável e para por a perder a maior parte do género humano. Por mais que se faça, é impossível conciliar a sua criação, em face de semelhante previsão, com a sua soberana bondade. Se, por outro lado, ele nada sabia, não era onisciente nem todo-poderoso. Num e noutro caso, temos a negação de atributos sem a plenitude dos quais Deus não seria Deus.

12 — Se admitirmos a falibilidade dos anjos, semelhante à dos homens, a punição é uma consequência natural e justa da falta cometida, desde que se admita ao mesmo tempo a possibilidade do resgate para o retorno ao bem, à reintegração na graça após o arrependimento e a expiação. Não haveria nada que então desmentisse a bondade de Deus. Deus sabia que eles faliriam e seriam punidos, mas sabia também que o castigo temporário seria um meio de fazê-los compreender a própria falta e portanto reverteria em seu benefício. Assim se cumpririam estas palavras do profeta Ezequiel: “Deus não quer a morte do pecador, mas a sua salvação.” (Ver cap. Vil, n° 20). O que seria a negação da bondade de Deus é a inutilidade do arrependimento e a impossibilidade do retorno ao bem. Nessa
hipótese é rigorosamente exato dizer-se que: “Esses anjos, desde a sua criação, pois que Deus não o podia ignorar, foram destinados ao mal pela eternidade e predestinados a se transformarem em demônios para arrastar os homens ao mal”.
13 — Vejamos agora qual é a sorte destes anjos e o que eles fazem:
Mal eclodira a revolta na linguagem dos Espíritos, quer dizer, nos impulsos dos seus pensamentos, foram eles banidos irrevogavelmente da cidade celeste e precipitados no abismo. Por essas palavras entendemos que eles foram relegados a um lugar de suplícios onde tivessem de sofrer a penalidade do fogo, conforme o que diz o texto do Evangelho, que procede das próprias palavras do Salvador: “Ide, malditos, ao fogo eterno que foi preparado para o demônio e seus anjos.” São Pedro diz expressamente: “Que Deus os enviou às cadeias e às torturas do inferno; mas nem todos ficam ali perpetuamente; somente no fim do mundo é que serão encerrados para sempre com os condenados. Atualmente Deus ainda permite que eles ocupem um lugar na criação a que pertencem, ordem das coisas à qual se liga a sua existência, nas relações enfim que eles devem ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa.
Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa, servindo de instrumento à justiça divina, contra as almas infortunadas que seduziram, numerosos outros, formando legiões infinitas e invisíveis, sob a conduta de seus chefes, moram nas camadas inferiores da nossa atmosfera e percorrem todas as partes do globo. Estão infiltrados em tudo que se passa neste mundo e na maioria das vezes desempenham o papel mais ativo.”
No que concerne às palavras do Cristo sobre o suplício do fogo eterno, ver o capítulo IV, intitulado O Inferno.
14 — Segundo esta doutrina, uma parte dos demônios fica somente no inferno enquanto a outra erra em liberdade, intrometendo-se em tudo que se passa neste mundo, divertindo-se em praticar o mal, e isso até o fim do mundo, cuja data indeterminada não chegará provavelmente tão cedo. Mas porque essa diversidade? São estes menos culpados? Seguramente não. A menos que se revezem nos seus papéis, o que parece resultar desta passagem: “Enquanto uns permanecem na sua morada tenebrosa e servem de instrumento à justiça divina contra as almas infortunadas que seduziram”.
Suas funções consistem, pois, em atormentar as almas que seduziram. Assim, não estão encarregados de punir as que são culpadas de faltas livre e involuntariamente cometidas, mas aquelas que caíram pelas suas próprias provocações. São, ao mesmo tempo, a causa da falta, e o instrumento do castigo. E, coisa que a justiça humana por mais imperfeita não admitiria, a vítima que sucumbe por fraqueza, na ocasião preparada para isso, é punida tão severamente como o agente provocador que empregou contra ela a artimanha e a astúcia. A punição é até mais severa, porque ela vai ao inferno ao deixar a Terra, para dali nunca mais sair, sofrendo sem trégua nem perdão pela eternidade, enquanto aquele que foi a causa da sua queda goza de uma dilação de prazo, em liberdade até o fim do mundo! A justiça de Deus não seria então mais perfeita que a dos homens?
15 — Isso não é tudo. “Deus permite que eles ocupem ainda um lugar na criação, nas relações que devem ter com os homens e das quais abusam da maneira mais perniciosa.” Deus poderia ignorar que eles iam abusar da liberdade que lhes concedia? Então porque a concedeu? Foi pois em conhecimento de causa que deixou as suas criaturas à mercê dos demônios, sabendo, em virtude da sua infinita presciência, que elas sucumbiriam e teriam a mesma sorte dos tentadores. Não tinham elas a sua própria fraqueza, sem a necessidade de que fossem excitadas ao mal por um inimigo tanto mais perigoso, quanto invisível? Ainda
se o castigo fosse apenas temporário e o culpado pudesse salvar-se pela reparação! Mas não: ele é condenado pela eternidade. Seu arrependimento, seu retorno ao bem, suas lamentações, tudo é sem valor.
Os demônios são assim agentes provocadores predestinados a recrutar almas para o inferno, e isso com a permissão de Deus, que sabia, ao criar essas almas, a sorte que lhes estava reservada. Que se diria, aqui na Terra, de um juiz que usasse semelhantes meios para encher as prisões? Estranha ideia que nos dão da Divindade de um Deus cujos atributos essenciais são a soberana justiça e a soberana bondade!
E é em nome de Jesus Cristo, daquele que só pregou o amor, a caridade e o perdão, que se ensinam semelhantes doutrinas! Houve um tempo em que esses absurdos passavam despercebidos. Não podiam ser compreendidos, não chocavam os sentimentos. O homem, arcado ao jugo do despotismo, submetia a sua razão de maneira cega, ou melhor, abdicava da razão. Mas hoje a hora da emancipação já soou. Ele compreende a justiça e deseja tê-la durante a sua vida e após a sua morte. Eis porque ele clama: isso não é assim, não pode ser assim ou Deus não é Deus!

 

Continua……no capítulo final OS DEMÔNIOS 2 de 2

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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